Antes de Constantinopla cair às mãos do Império Otomano em 1453, um marinheiro deixou gravadas estas palavras para a mulher que amava. Ao longo dos séculos seguintes, esta carta atravessou o Mediterrâneo até Veneza, onde se diz que foi disputada por Medecis e Sforzas, duas das mais poderosas famílias de então. Roubada por um poeta vagabundo genovês, foi achada em 1867 na ilha de Santorini, três séculos depois, nas mãos de um coleccionador de tesouros grego. Desconhece-se como terá chegado até este espaço...
Senhora Minha,
São profundamente inescrutáveis os caminhos que a este porto me fizeram convergir.
Lá ao longe, vejo o imenso mar que enfeitiçou marinheiros e aventureiros à conquista de mundos desconhecidos e que se perderam na sede de vã glória e ardor de recompensas fúteis.
Diviso nos seus olhares a flamejante ganância que torna o ser humano odioso e torpe, escutando com pesar as suas palavras de ambição e avareza.
No meu pensamento, Vós ocupais o pedestal supremo, e é a permanente recordação de Vossa voz que julgo ouvir nas noites em que a minha caravela fustiga as ondas dos oceanos.
Minha rota é um constante desejo de Vos agraciar, em Vossa presença, com as odes que mereceis e com as flores que tornam o mundo ao Vosso redor um levitante jardim das delícias, como aquele cuja visão só aos grandes poetas foi dado o talento de construir e consumar em palavras.
Lamento aqueles a quem nunca foi dada a graça de contemplar Vosso rosto, oh Jovem Princesa, porque é Vossa imagem sorridente que ostento como consolo face às infindáveis milhas que me separam de Vós e que apaziguam a saudade que gravo como um eco refulgente e imperdível nas constelações serenas e celestiais que me orientam a jusante.
Anseio a hora de regressar a casa, ao calor aconchegante de Vossos ternos braços e reviver os momentos inolvidáveis, em que selámos num beijo a flecha que Eros cravou no bater dos nossos corações.
É da recordação desses momentos que meu coração padece frente ao horizonte rasgado de azul, simbiose de céu e mar.
Por vezes perco-me entre as gentes, crendo ver, qual miragem, Vosso rosto, Vosso olhar. Corro atrás dela e todos me apelidam de louco, rindo e zombando.
Dizem que sofro da peste do sol de Istambul. Soubessem eles o motivo de tal azáfama e loucura e acorreriam a Vós, tal como os gentios sucumbiram a Cristo, na esperança de um milagre e redenção. Quão longe de Vossa essência estão eles, eles sim, os loucos.
Tamanha é a ignorância que grassa em suas palavras por puro desconhecimento de Vós, oh Senhora dos Céus de Primavera. Eu sou eleito. Eleito por devotar-Vos amor e dedicação. Eleito por partilhar com o chilrear dos pássaros a leveza e sabedoria de Vossa graça, oh Bela.
Entrevejo as colunas graníticas, através das quais se perdem na memória os viajantes que as cruzam. Não é esse o meu caminho.
Sei que o meu destino é retornar a Vossos braços, quando as primeiras folhas de outono ressoarem nas árvores. Seguirei meu rumo, determinado pela saudade que acalento de Vosso ser....
É esse o caminho que conduz ao meu porto de abrigo.
Com toda a dedicação e o mais nobre dos amores, ao largo do porto de Istambul, sob as chagas do sol...
Vosso admirador e muy apaixonado
Ibn Al-Fayed