Segunda-feira, Julho 20, 2009

A Insustentável Asfixia do Aquário

"City That Never Sleeps"

No piano incontornáveis perplexidades que desafiam
Fugas consentidas, terapias do imaginário
Colares de contas, nós, estórias e segredos que se desfiam
O ar irrespirável de peixes fora do aquário

O saxofone de auroras furtivas deixou de tocar na rua
O dono exilou-se em divagações e arrumou-o a um canto
Tocava madrugada fora a solidão de uma alma nua
Projectava uma certa aura de ilusão no desencanto

Um velho marquês dorme num banco de jardim
Tolhido num leito feito de cartão e nostalgia
Chorou quando soube que a monarquia teve um fim
Tomou a loucura como esposa porque a realidade lhe recusou tudo o que pedia

Desapaixonam a cidade da pessoa
Nas exíguas esquinas com vista para o alcatrão visceral
O punho cerrado tentando segurar o tempo que se escoa
O pensamento encerrado num qualquer paraíso artificial
Paixão pelo abismo num mundo ao contrário
O ar irrespirável de peixes fora do aquário

Quinta-feira, Julho 16, 2009

Circumnavegação de Espaços Afectivos

Salvador Dali 'The Enigma of Desire' (1929)

"Mas sei que/uma sombra se demora contigo/quando me pergunto onde estás:/uma inquietação que atravessa/o espaço entre mim e ti/e te rouba as certezas de hoje/como a mim me dá este poema." Nuno Júdice in "O Movimento do Mundo"

A rota das colisões invisíveis nas paisagens do rosto. O mesmo quadro que murmura algo imperceptível por entre as cores acabadas de pintar. Aquele rosto pintado a óleo tão nítido e vivaz, como se as sombras preenchidas pela luz vaga do crepúsculo penetrando pela janela timidamente pudessem incorrer na tentação de desejar algo mais do que prólogos grávidos de novos começos nas irrequietas interrogações daquele interlúdio em que o dia se perde nos braços da noite. Aquele rosto fitando o espelho como se procurasse algo atrás dele. Alguém invoca o sentido mais puro da arte que se comove em silêncio e os olhos navegam, quais navios de contemplação cruzando o mar das apercepções equívocas, numa confluência de cores. O quadro permanece inacabado. Como um mural que se pinta, à medida das disposições extasiantes dos caprichos artísticos ou das correntes fora de moda. Pincelando de vertigens as divagações noctívagas de desejos delimitados pela efusão ilusória de usar a lua como desculpa para o arrebatamento poético presente no canto das cigarras. Na mesinha de cabeceira, no quadro, uma carta meio dobrada pendendo sobre um cinzeiro. Apaga-se cada palavra e cada letra que cai ao chão soçobra na irracionalidade que a linguagem atinge quando não sabe expressar a sua força criadora ante o poder da imagem. O rosto naquele quadro evoca a turbulência ébria de pernoitar num azimute feito de encruzilhadas. Um navio fantasma flutua sobre um rio. A densidade do coração a três dimensões evola-se em direcção a algum arquipélago. Os génios sonham o mundo e buscam a sua origem aventurando-se noite adentro. Interrogando as desrazões inócuas na circumnavegação afectiva da desmesura que os sentimentos ocupam na vida do espaço íntimo.

Quinta-feira, Julho 09, 2009

Just a Pawn is This Game


Coldplay 'Trouble'

And I never meant to cause you trouble,
I never meant to do you wrong,
And I, well if I ever caused you trouble,
And oh no, I never meant to do you harm

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Notícias da Cidade Nova


Gustav Klimt 'Life and Death'

as sombras movem-se, intrusas,
nas elipses diletantes da voz
que supreende na intrepidez silenciosa
o ter que seguir um caminho
os gumes fenecem junto ao leito,
a rosa tripartida afaga as planícies frágeis
no rosto solene da aurora
os interstícios foram outrora de redenção
um império em cinzas jaz adormecido
na entumescência lúbrica de um triângulo dissolvente
uma cidade nova eleva-se na circundância do amanhecer,
nas ruínas lavradas de âmbar e exílio
correndo atrás da voz fugitiva
por uma vereda com sabor a nevoeiro

Terça-feira, Junho 02, 2009

Istambul, Verão de 1442...


Antes de Constantinopla cair às mãos do Império Otomano em 1453, um marinheiro deixou gravadas estas palavras para a mulher que amava. Ao longo dos séculos seguintes, esta carta atravessou o Mediterrâneo até Veneza, onde se diz que foi disputada por Medecis e Sforzas, duas das mais poderosas famílias de então. Roubada por um poeta vagabundo genovês, foi achada em 1867 na ilha de Santorini, três séculos depois, nas mãos de um coleccionador de tesouros grego. Desconhece-se como terá chegado até este espaço...


Senhora Minha,

São profundamente inescrutáveis os caminhos que a este porto me fizeram convergir.
Lá ao longe, vejo o imenso mar que enfeitiçou marinheiros e aventureiros à conquista de mundos desconhecidos e que se perderam na sede de vã glória e ardor de recompensas fúteis.

Diviso nos seus olhares a flamejante ganância que torna o ser humano odioso e torpe, escutando com pesar as suas palavras de ambição e avareza.
No meu pensamento, Vós ocupais o pedestal supremo, e é a permanente recordação de Vossa voz que julgo ouvir nas noites em que a minha caravela fustiga as ondas dos oceanos.

Minha rota é um constante desejo de Vos agraciar, em Vossa presença, com as odes que mereceis e com as flores que tornam o mundo ao Vosso redor um levitante jardim das delícias, como aquele cuja visão só aos grandes poetas foi dado o talento de construir e consumar em palavras.

Lamento aqueles a quem nunca foi dada a graça de contemplar Vosso rosto, oh Jovem Princesa, porque é Vossa imagem sorridente que ostento como consolo face às infindáveis milhas que me separam de Vós e que apaziguam a saudade que gravo como um eco refulgente e imperdível nas constelações serenas e celestiais que me orientam a jusante.

Anseio a hora de regressar a casa, ao calor aconchegante de Vossos ternos braços e reviver os momentos inolvidáveis, em que selámos num beijo a flecha que Eros cravou no bater dos nossos corações.

É da recordação desses momentos que meu coração padece frente ao horizonte rasgado de azul, simbiose de céu e mar.
Por vezes perco-me entre as gentes, crendo ver, qual miragem, Vosso rosto, Vosso olhar. Corro atrás dela e todos me apelidam de louco, rindo e zombando.

Dizem que sofro da peste do sol de Istambul. Soubessem eles o motivo de tal azáfama e loucura e acorreriam a Vós, tal como os gentios sucumbiram a Cristo, na esperança de um milagre e redenção. Quão longe de Vossa essência estão eles, eles sim, os loucos.

Tamanha é a ignorância que grassa em suas palavras por puro desconhecimento de Vós, oh Senhora dos Céus de Primavera. Eu sou eleito. Eleito por devotar-Vos amor e dedicação. Eleito por partilhar com o chilrear dos pássaros a leveza e sabedoria de Vossa graça, oh Bela.

Entrevejo as colunas graníticas, através das quais se perdem na memória os viajantes que as cruzam. Não é esse o meu caminho.
Sei que o meu destino é retornar a Vossos braços, quando as primeiras folhas de outono ressoarem nas árvores. Seguirei meu rumo, determinado pela saudade que acalento de Vosso ser....

É esse o caminho que conduz ao meu porto de abrigo.

Com toda a dedicação e o mais nobre dos amores, ao largo do porto de Istambul, sob as chagas do sol...

Vosso admirador e muy apaixonado

Ibn Al-Fayed

Quinta-feira, Maio 28, 2009

UE, alguém sabe o que é?


Vital Moreira, Candidato do PS às eleições europeias. Com políticos destes, vamos lá? Retirado daqui.

Ao acompanhar (um pouco à margem, confesso) a campanha eleitoral dos principais partidos políticos portugueses para as eleições europeias só consigo chegar a duas conclusões:

1- As declarações, os debates, os jantares comício, a campanha nas ruas... Será que a entendiante pobreza de ideias que tem vindo a marcar esta campanha é mesmo o melhor que os nossos políticos conseguem fazer?

2 - Mas afinal está em causa uma campanha eleitoral para eleições europeias ou para uma qualquer eleição nacional? É que, até agora, a discussão passou (de)mais pela partidarização (o PS, por exemplo, não se cansa de salientar a importância que teve na adesão de Portugal à UE) e (de) menos pelas grandes questões de fundo* que marcam o presente e o futuro desta Europa a 27 que é, ela própria (parece), um problema sem solução.

É que...

Parece ser mais importante discutir a permanência ou a não permanência de Durão Barroso na Comissão Europeia porque é português ou porque pertence a determinado partido político do que esclarecer as pessoas sobre o que representa a Europa enquanto projecto institucional e político ou tentar encontrar soluções para o seu futuro.

É prioritário, em época imprópria, defender a criação de um imposto europeu que ainda ninguém conseguiu perceber bem o que é ou para o que eventualmente serviria do que procurar soluções para tirar Portugal da cauda da União Europeia em quase tudo.

Pelo menos em terras lusas, permanece incontornável o principal problema que impede a Europa de seguir adiante: o défice participativo das populações nas principais questões com que se debate a União Europeia. No caso português, é normal. Com campanhas eleitorais destas e políticos destes, como é o caso do candidato do MRPP cujo cérebro parece ter parado na história antes da queda do Muro de Berlim, não vamos lá. Mais vale ver a Euronews.

* TRATADO DE LISBOA, CRIAÇÃO DE FORMAS DE PARTICIPAÇÃO POLÍTICA MAIS EFECTIVA NAS QUESTÕES EUROPEIAS, REDUÇÃO DA DESCONFIANÇA QUE OS CIDADÃOS SENTEM FACE ÀS INSTITUIÇÕES EUROPEIAS, ADESÃO DA TURQUIA, ETC. ETC.

Quarta-feira, Maio 20, 2009

The Spleen Decade

Scott Sandell 'Seas of Uncertainty'

The same old mirror images blasting in the wind
Invisible masks in the streets after dark
The plastic loneliness of a failed sin
Inviting a new start
Delusion waits just around the bend
So when you shoot to a star
You've got to shoot it with your entire heart

The story remains to be fully told
It has not been written yet
The promised land is still unfound by those searchers of soul
Who gamble fates and fortunes in a single bet

The way to social justice is hard to climb
Politicians words are a vaccum of no return
Made just to mess and dazzle peolpe's minds
There's much more beyond that to be learned

Personal biographies go through such fast changes
They won't be able to see spontaneous details
It seems no one holds space in the present memory
For the spell of discovery and sudden fairy tales

There's no other way than driftin' through this uncertainty
Filling blank pages with the scent of a spleen reality
That promised this story would be
Written with words of hope and liberty