O golpe fora desferido com a destreza de Tiger Woods manuseando um taco de golfe e a velocidade de um cometa atravessando a via láctea. Ao acordar, para além de uma secura insalubre e desértica nos lábios, a minha cabeça soava como um Big Ben alucinado e era capaz de contar mais estrelas à minha volta do as que existiam na constelação de Orion. A poucos metros de mim, ele jazia como uma princesa de um conto de fadas antes de ser beijada pelo seu principe. Embora não tivesse provado qualquer maçã envenenada, jamais despertaria do sono profundo a que havia sido condenado.
Eu estava ali a mais. Apenas fora convidado como terceiro elemento para um encontro naquela esplunca de bairro, vulgo hotel de 13ª classe. No entanto, encontros com cadáveres revelam-se quase sempre um problema comunicacional. Eles não são de muitas palavras e nunca correspondem à conversa que tentamos entabular com eles. Talvez seja por estarem mortos.
Ao entrar ali, a escuridão fizera-me deparar com um trovão esmagador que fazia o meu cérebro latejar de dor. O meu companheiro de quarto tivera menos sorte. Encontrara um desfecho terminal que eliminara a respiração dos seus poros. Estava morto. Baleado com uma arma de cano curto no coração. A cor dos seus lábios transformara-se num pálido poema de sangue, legível apenas pela fria insensibilidade dos médicos legistas na ode de uma autópsia.
A meu ver, tinha dois graves problemas naquele momento. O primeiro era sair dali o mais rapidamente possível sem ser visto. Caso não fosse bem sucedido na resolução do primeiro, o segundo era explicar à polícia que não tinha sido eu a deixar aquele gajo no estado em que estava.
Tudo começara dois dias antes, quando Yara, a Dama do Gelo (ou a Esfinge de Coração de Pedra, como preferirem) entrou no meu escritório com o medo inscrito no olhar, filtrado por torrentes e veios de lágrimas que nunca cheguei a descobrir se eram verdadeiras ou artificiais como as flores das lojas de chineses. Procurava uma espécie de salvador. Disse-lhe sarcasticamente que procurasse Jesus Cristo. Ele é que tinha fama de salvar almas perdidas do inferno. Disse-me que o seu caso era mais grave do que passar a eternidade no inferno. Aí comecei a interessar-me solidariamente por aquela alma que tinha diante de mim.
Segundo me disse, ela estava a ser vítima de chantagem. Casara mais por conveniência do que por amor (em certos pontos a sinceridade de Yara era atroz e brutal) com um milionário que dava mais valor a objectos de arte e livros antigos do que à conjectura sinuosa da sua pele alva e acetinada. O cabelo, tingido de um loiro quase solar e encadeante, caía-lhe como uma cascata sobre os ombros diáfanos e oceânicos. O seu rosto era de uma beleza cuja realidade só acontece nos sonhos. Eu, se fosse casado com uma mulher como aquela, jamais não faria apreciação artística o meu principal objectivo de vida.
Yara envolvera-se com um tipo obscuro e sedutor. Uma festa, uma noite de copos, troca de números de telemóvel e o resto da história não é preciso contar. Podem encontrá-la em qualquer manual prático de sedução.
Ele fazia lembrar um espião russo dos tempos da guerra fria, confessou Yara com um sorriso recuperado do manto vermelho em que se converteram os seus olhos de Madalena. O tempo foi passando e ela pouco sabia sobre ele. Em compensação, ele sabia quase tudo sobre ela. A sua frustração matrimonial. Os seus desejos insatisfeitos. O seu esforço por tentar agradar a um marido que não lhe dava o merecido valor. O amante (como é sabido ser a função de todos os amantes) preenchia as suas lacunas afectivas e amorosas. Em troca, ela agraciava-o com dádivas materiais que o verdadeiro amor (embora eu fosse tão crente nele como na existência de Deus ou da Branca de Neve e dos Sete Anões) dispensa para a sua consumação.
Viveu alguns meses no Eden absoluto. Começava já a pensar em declarar ao marido o soneto da separação, quando as mil e uma noites acabaram e o seu amante se transformou ou, finalmente, revelou o seu veradeiro carácter. As tardes amorosas num discreto apartamento alugado na periferia foram dando lugar a ausências e, com o tempo, a ameaças. Segundo ela, o cavaleiro que a resgatara às presas da infelicidade conjugal começou a revelar-se um vil vampiro monetário, exigindo avultadas somas que ela não conseguia pagar. O termo técnico correcto para o acto que ele praticava chama-se chantagem.
A situação tornara a atmosfera da sua vida irrespirável e, por isso, decidiu que precisava de ajuda. Claro que uma mulher vítima de chantagem não procura os alcóolicos anónimos para se livrar de um chantagista. Nem vai a uma igreja rezar Avés Marias e esperar que o Altissimo faça um milagre. Procura, antes, alguém envolvido nos meios sórdidos da existência urbana que seja capaz de competir com um ser desprovido de moralidade de igual para igual. Costumam chamar-nos, com pompa e circunstância, detectives privados.
Quando me procurou, Yara já arquitectara um plano. Mal elaborado, mas não deixava de ser um plano. Iria confiscar clandestinamente (termo técnico elegante para a arte de roubar) ao marido um esboço de Van Gogh adquirido num leilão em Zurique para entregar ao amante, esboço esse que renderia uma reforma eterna se comprado por algum coleccionador de arte, e, dessa forma, ela ver-se-ia livre dele para sempre. Marcara um encontro com ele ao final da noite num hotel barato para lhe entregar o bilhete de ida definitiva dele. Até aqui, tudo bem.
Porém, como em todos os planos da pólvora, as coisas sofrem reveses. Na verdade, acabariam mal para o amante chantageador. E também para mim. O golpe que sofri na cabeça revelava isso como uma evidência científica.
A cena estava bem montada naquele quarto. Romeu sucumbe no final da peça. Julieta esgueira-se furtivamente para fora do palco com um esboço raro de Van Gogh. E o valete de companhia da dama, eu, fica com a cabeça transformada no Passeio da Fama de Hollywood. Cheia de estrelas. O argumento da peça, viria eu a descobrir mais tarde, estava algo mal escrito. Ligeiramente distorcido.