Sábado, Outubro 24, 2009

Cast Your Essence to the Wind

Renee Magritte 'La Lumière des Coincidences'

Guitars may weep gently
your discrete essence through the oceans,
seagulls will protect
the trace of your footprints in the sand,
the suites of your skin
will cristalize legends of spring
across the universe
on planets and galaxies yet to discover

flames will bring continents out of the fire
ships will sail in the mist of storms and motions
night will blossom roses in your lips
birds will praise your hands
caressing the life lines of your heart,
through the call of a morning star...

the river will soon let you go
but you will always return in a whisper,
your smile will shape the shades in the landscapes,
icebergs will melt before your heat
and some blind fool may deny your beauty
for lack of sensibility only.
Would they be poets
and they'd make statues out of clouds.

painters will capture stellar impressions
rooted in the sunrises of your face
through the everlasting dawns of the dream
and so invisible will be the maps of joy
they will leave in the mirages they draw
to tell the helpless about the awakening
when you rise among the mountains

the afternoon's gone,
soon the caravan will leave the willows behind
and only silence will testify eyes in farewell
remember only the times the sea roared words of tenderness
and the foam caressed the plains of your arms,

unexplainable and rebel
will always be the facts breaking the hours
when the words seemed to create an idea of an earthly heaven
after a first encounter
the roads of life will catch the dazed
with a scent of perplex crossroads
not knowing then
if some walking knights hide inside them
the willows still sway
a guitar diverged from the caravan
and still plays notes of your essence to the wind...

Eric Clapton - Don't let me be lonely tonight


Eric Clapton 'Don't let me be lonely tonight'

Versão bluesy... after hours do clássico de James Taylor... deeply nocturne...

Do me wrong, do me right,
Tell me lies but hold me tight,
Save your goodbyes for the morning light,
But dont let me be lonely tonight.

Say goodbye and say hello,
Sure enough good to see you, but its time to go,
Dont say yes but please dont say no,
I dont want to be lonely tonight.

Go away then, damn you,
Go on and do as you please,
You aint gonna see me gettin down on my knees.
Im undecided, and your hearts been divided,
Youve been turning my world upside down.

Do me wrong, do me right (right now baby),
Go on and tell me lies but hold me tight.
Save your goodbyes for the morning light (morning light),
But dont let me be lonely tonight.
I dont want to be lonely tonight.
No, no, I dont want to be lonely tonight.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

Autárquicas Raw 2009: O Combate Vai Começar


Retirado daqui

Passadas as legislativas, o cenário apruma-se para as eleições autárquicas. Depois da extraordinária vitória de José Sócrates e do PS (nas palavras do próprio), em que a maioria absoluta (ou absolutista) lhe foi retirada, entram agora em cena uma pluralidade sui generis de personagens que prometem empolgar (ainda eles próprios estão para descobrir como) o monótono panorama político nacional durantes as próximas duas semanas.

Se foi um admirador inconfesso dos Sopranos, então não vai querer deixar de conhecer os clãs sicialianos que temos por cá: os Isaltinos, os Valentins, as Fatinhas (Felgueiras) e quejandos alcaides municipais que quase disputam a permanência no poder a um qualquer ditador africano. Eis uma oportunidade que não pode perder. Delicie-se com os (d)efeitos espaciais e as antológicas tiradas que deverão ser proferidas durante a campanha eleitoral.

Aproveite a fabulosa oferta da AABP - Associação de Aspirantes a Boys Partidários: aprenda a ser um autarca de sucesso em 10 lições com um curso por correspondência da CEAC que o ensina 5924 maneiras diferentes de desviar verbas do erário público em proveito próprio e, caso não seja expert na matéria, ainda lhe diz como rabiscar uma cruz no boletim de voto.

Se tem familiares taxistas na Suiça, no Vietname ou no Panamá (ou mesmo em Carrazeda de Ansiães), então esta mensagem também é para si. Enterneça-se com os outdoors mega-originais (em nada copiados da campanha de Barack Obama): "Sim, nós conseguimos", "Sim, (ah e tal) nós (também) conseguimos", "Sim, nós (que queremos jobs for our boys) também conseguimos", "Sim, nós (que estamos farto da carneirice das Jotas e queremos é trepar na carreira) somos capazes".

Além de poder acompanhar os discursos do seu autarca favorito no Twitter e de lhe poder deixar uma mensagem de incentivo (do estilo: "Epá, tu és mesmo bacano, mene. Continua a malhar forte e feio nos gajos, pá ") no Facebook, não perca ainda o confronto do ano. Um feroz e titânico duelo entre António "Rosa Shoque" Costa e Santana "O Marquês do Túnel ao pé da estátua" Lopes (sim, o lendário legionário das noites da 24 de Julho está de volta) em Lisboa num combate sem tréguas, sem escape onde só um deles poderá vencer (a não ser que se coliguem).

Autárquicas Raw 2009. Num país democrático (ou qualquer coisa ligeiramente parecida com isso) perto de si.

O Luar Ama Os Teus Ombros Oceânicos (Fim)

Não precisei de a procurar. Quando regressei ao escritório, ela encontrava-se sentada na sala de espera. O seu rosto, principalmente os seus olhos, soavam como uma partitura de desespero. Um cigarro meio adormecido pendia dos seus dedos, enquanto o fumo se evolava na inóspita atmosfera do meu lar profissional.

Começou por me perguntar como estava a minha cabeça. Disse-lhe que a vida já me fizera dar cabeçadas mais fortes do que a pancada com que ela me tinha brindado na nuca. Nada que meia garrafa de whisky e um piano não curassem. Depois desta história terminar.

Depois contou-me a sua versão dos acontecimentos no quarto de hotel. O destino, cego aos planos dos mortais, trocou-lhe as voltas e Yara, perante um Boris cegamente apaixonado, desesperado e disposto a tudo para tê-la ao seu lado, não teve outra hipótese a não ser matá-lo. Caso contrário, todo o conforto, luxo e opulência que o seu marido lhe proporcionara iriam findar de forma abrupta, deixando-a de novo com a fatigante tarefa de lutar pela sua existência.

Boris não fora o primeiro amante de Yara. Antes dele, a lista tinha sido demasiado numerosa. Mas Boris era diferente de todos os outros. O romantismo dele, a princípio, fizera-a embarcar numa fantasia que a exilava da rotina. A paixão de Boris pela fotografia, tendo Yara como musa dilecta, deliciava-a. Os problemas começaram quando Boris se apaixonou pela tez alva de Yara. Exigia mais do que um desejo de encontros fortuitos. Exigia o que qualquer amante exige desde os tempos dos romances de cavalaria: a incondicionabilidade do sentimento.

Mas, para Yara, incondicionável era o estatuto e o luxo que a rodeavam. Jamais abdicaria disso por homem algum. Com o tempo, Boris começou a tornar-se cada vez mais impaciente, ao ponto de ter ameaçado Yara de contar tudo ao marido dela. Yara via-se, assim, pisando areias movediças e daí ter decidido procurar-me.

O encontro no hotel visava assustar Boris. O esboço de Dali era tão falso como a primeira versão da história que Yara me contara. Mas algo, ou mesmo tudo, correu mal. Yara chegara mais cedo do que a hora combinada, de forma a tentar convencer Boris a sair definitivamente da sua vida. Eu teria servido apenas para persuadi-lo disso, caso tivesse sido necessário.

Porém, o amante desesperado revelou-se mais selvagem que o previsto e Yara viu-se obrigado a ameaçá-lo com a arma que levava na mala. A morte ocorreu acidentalmente depois de Boris lhe ter tentado tirar a arma. Yara jurava com o fervor de uma Madre Teresa que não pretendia ver-se livre do seu ex-amante de uma forma tão definitivamente.

Uma vez morto, assustada, Yara teve de congeminar um plano, de forma a poder eximir-se à situação melindrosa para o seu bom nome. A pancada que me deu na cabeça foi uma reacção involuntária. Não queria ter-me atingido, mas não tinha outra hipótese. Não queria que eu a visse no quarto ao entrar. Depois, friamente, claro que pensou que não me seria muito difícil associar os elementos da história e chegar até ela.

Terminada a confissão, o rosto de Yara recobrou uma expressão mais condigna com a sua verdadeira condição moral. O seu olhar exalava a exacta magnitude do calculismo e frieza de uma mulher habituada a satisfazer todos os seus desejos sem olhar a qualquer meio. Naquele momento, a Dama do Gelo entrou na sala. Afirmou, num tom quase vitorioso, que eu não ganharia nada em revelar toda aquela história à polícia. O dinheiro do seu marido era suficiente para comprar o silêncio de todos quantos fossem necessários na cidade.

Do tom amigavelmente ameaçador, a Dama do Gelo passou a uma abordagem mais suave e condescendente. Disse que até tinha simpatizado comigo e que, com ela, eu poderia deixar de me dedicar à rotina diária de ter que trabalhar para sobreviver. No fundo, queria comprar o meu silêncio e o meu tempo com mais dinheiro do que eu poderia provavelmente ganhar numa vida inteira.

Não sendo incorruptível nem santo, não sou também um fantoche que se deixa manipular por mulheres e por dinheiro. Mandei-a com o desprezo mais gentil e sacrástico que me foi possível àquela parte que vocês conseguem imaginar e disse-lhe para se evaporar dali. Os olhos de Yara, coléricos com a recusa a que não estava habituada, apunhalavam-me de ódio e imprecações que não precisavam de ser verbalizadas.

Vi-a caminhar, empertigada de raiva, em direcção à porta. Os seus ombros ocêanicos flutuando na tensão primordial do espaço. O estrépito violento da porta a bater rompeu com o silêncio espectral a que a minha mente contemplativa reduzira o ambiente. Yara saiu e nunca mais tive notícias dela. Ainda bem. Sabia que não me valeria de nada denunciá-la à polícia. Só me traria amarguras de boca e, num mundo onde a corrupção grassa, ser herói solitário é algo ao qual não me sinto predestinado.

Pensando nisto, fui para casa, sentei-me no sofá e deixei-me levar pela meia garrafa de whisky e pelo som do piano de Bill Evans, os ingredientes que uso quando me apetece divagar inconsequentemente pela perdição que representam a natureza humana e as suas paixões.

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

O Luar Ama Os Teus Ombros Oceânicos (cont.)

Consegui sair do local do crime, antes da polícia chegar. À excepção de um gato vadio, creio que mais ninguém deu pela minha presença nas imediações. Lembrar-me-ia mais tarde de subornar o gato com comida para ele não me denunciar às autoridades.

A minha próxima missão era encontrar Yara e descobrir o motivo de alguém me querer no papel de assassino do seu amante. Não tenho nada contra bodes expiatórios, mas, além de apenas nutrir condolências por seres com chifres (consequências inevitáveis do meu meio profissional, constantemente dedicado a casos de divórcio) não gosto de ser envolvido nos problemas dos outros por acréscimo. Ainda mais, sem me pedirem licença para me envolverem neles. O que, além de descortês, é eticamente abominável.

Não me foi difícil descobrir onde Yara vivia. A internet tem as sua vantagens. Dá-nos uma informação mais rapidamente do que a vizinha coscuvilheira do nosso bairro e não temos que ouvir a história do netinho que esfolou os dedos das mãos depois de catorze horas consecutivas a jogar play station.

Antes de a visitar, quis primeiro inspeccionar o ninho de amor que a minha cliente mantinha na periferia com o seu espião que veio do frio. Talvez me ajudasse a completar as peças do puzzle que ainda me faltavam. Não sei porquê, mas havia qualquer coisa naquela história que não batia certo.

O apartamento estava elegamentemente mobilado, sem cair no espalhafato provinciano que muitas vezes o luxo acaba por encobrir. Ambientado aos ardores românticos de duas almas que desejam esquecer o mundo exterior por algumas horas, aquele era o lugar perfeito para a iniciação amorosa de qualquer ser apaixonado. Uma espécie de Arte de Amar de Ovídio, mas em versão arquitectónica.

O primeiro sinal de que algo estava errado eram as fotografias de Yara espalhadas pela casa. Yara poeticamente descrita no mistério que as imagens a preto e branco nunca desvelam por inteiro. A foto que me fez deter o meu olhar por mais tempo foi a dos seus ombros. Yara de costas para a objectiva, imersa num fundo que supunha ser azul, com o Atlântico no horizonte. Os seus ombros oceânicos ocupando a amplitude do espaço e escapando, talvez, à definição urgente do tempo. Um trabalho demasiado estético, demorado e sentimental para um simples chantagista.

O segundo sinal foram os mails que encontrei no portátil dele. Não me foi muito difícil descobrir a palavra-passe do mail do espião, dado que eu era um hacker amador nos meus tempos livres. Percebia, portanto, um pouco mais de informática que o mais comum dos mortais.

Mails e mails, estradas de palavras, cardumes de declarações apaixonadas a Yara. Sempre assinadas com o mesmo nome: Boris. Os primeiros mails indiciavam o fogo da paixão a consumar-se vorazmente. As respostas de Yara aos mails de Boris primavam pela mesma tónica. Paixão. A paixão é fogo que arde sem se ver, diz o poeta. Mas os traços desta ficaram gravados nas calendas da caixa de correio de Boris.

O que mudou nos últimos mails que li de Boris para Yara foi o tom. Suplicante, angustiado e desesperado. Mais condizente com a aura de um apaixonado não correspondido do que com um homem que pretende ficar bem na vida à custa de chantagem. Impaciente, Boris reclamava a ausência de Yara nas últimas semanas e dizia que já não conseguia viver sem ela. Numa das últimas missivas electrónicas, Boris ameaçava Yara de contar tudo o que se passara entre eles ao marido dela. Mau sinal. Prelúdio funesto para um funeral.

As directrizes desta história mudavam, assim, de direcção. Talvez, o que Yara me tivesse contado não fosse a veracidade dos factos. Talvez, Boris tivesse chantageado tanto Yara como eu chantageei a Rainha Vitória noutra vida em que fui a encarnação de Buda tomando o chá das cinco no Palácio de Windsor. Talvez Yara quisesse ver-se livre de Boris porque ele se tornara um Romeu demasiado incómodo e ameaçador. Mas por amor a Yara e não por amor ao dinheiro. Talvez Yara tivesse estado naquele hotel antes de mim reunida com Boris e não pretendesse, como tínhamos combinado, que nos encontrássemos os três naquele quarto. Com vida.

Talvez tenha sido Yara, e não Tiger Woods, a presentear-me com estrelas na cabeça. Algo que só poderia saber por ela. Dado que o gato vadio tinha sido o único a ver-me sair dali, só ele a teria visto também passar, se ela se tivesse esgueirado furtivamente. Não valia a pena interrogar um ser miante. Já sabia, por experiência própria, que um gato vadio vê tudo, mas não revela nada.

O terceiro sinal deu-se subitamente na minha mente. O tiro dado a Boris só poderia ter sido disparado por alguém que estivesse muito próximo dele. Alguém que lhe pudesse chegar perto do coração. E, de acordo com a correspondência íntima que eu tinha lido, havia uma única pessoa no coração de Boris. Esqueçam tudo o que Freud, Jung ou os biólogos contemporâneos afirmaram sobre o humano, demasiado humano das emoções. O segredo de tudo o que é emocional e vital reside no sangue quente explodindo em torrente nas veias e num único orgão sensível do corpo extasiado de paixão: o coração.

Domingo, Setembro 13, 2009

O Luar Ama os Teus Ombros Oceânicos

O golpe fora desferido com a destreza de Tiger Woods manuseando um taco de golfe e a velocidade de um cometa atravessando a via láctea. Ao acordar, para além de uma secura insalubre e desértica nos lábios, a minha cabeça soava como um Big Ben alucinado e era capaz de contar mais estrelas à minha volta do as que existiam na constelação de Orion. A poucos metros de mim, ele jazia como uma princesa de um conto de fadas antes de ser beijada pelo seu principe. Embora não tivesse provado qualquer maçã envenenada, jamais despertaria do sono profundo a que havia sido condenado.

Eu estava ali a mais. Apenas fora convidado como terceiro elemento para um encontro naquela esplunca de bairro, vulgo hotel de 13ª classe. No entanto, encontros com cadáveres revelam-se quase sempre um problema comunicacional. Eles não são de muitas palavras e nunca correspondem à conversa que tentamos entabular com eles. Talvez seja por estarem mortos.

Ao entrar ali, a escuridão fizera-me deparar com um trovão esmagador que fazia o meu cérebro latejar de dor. O meu companheiro de quarto tivera menos sorte. Encontrara um desfecho terminal que eliminara a respiração dos seus poros. Estava morto. Baleado com uma arma de cano curto no coração. A cor dos seus lábios transformara-se num pálido poema de sangue, legível apenas pela fria insensibilidade dos médicos legistas na ode de uma autópsia.

A meu ver, tinha dois graves problemas naquele momento. O primeiro era sair dali o mais rapidamente possível sem ser visto. Caso não fosse bem sucedido na resolução do primeiro, o segundo era explicar à polícia que não tinha sido eu a deixar aquele gajo no estado em que estava.

Tudo começara dois dias antes, quando Yara, a Dama do Gelo (ou a Esfinge de Coração de Pedra, como preferirem) entrou no meu escritório com o medo inscrito no olhar, filtrado por torrentes e veios de lágrimas que nunca cheguei a descobrir se eram verdadeiras ou artificiais como as flores das lojas de chineses. Procurava uma espécie de salvador. Disse-lhe sarcasticamente que procurasse Jesus Cristo. Ele é que tinha fama de salvar almas perdidas do inferno. Disse-me que o seu caso era mais grave do que passar a eternidade no inferno. Aí comecei a interessar-me solidariamente por aquela alma que tinha diante de mim.

Segundo me disse, ela estava a ser vítima de chantagem. Casara mais por conveniência do que por amor (em certos pontos a sinceridade de Yara era atroz e brutal) com um milionário que dava mais valor a objectos de arte e livros antigos do que à conjectura sinuosa da sua pele alva e acetinada. O cabelo, tingido de um loiro quase solar e encadeante, caía-lhe como uma cascata sobre os ombros diáfanos e oceânicos. O seu rosto era de uma beleza cuja realidade só acontece nos sonhos. Eu, se fosse casado com uma mulher como aquela, jamais não faria apreciação artística o meu principal objectivo de vida.

Yara envolvera-se com um tipo obscuro e sedutor. Uma festa, uma noite de copos, troca de números de telemóvel e o resto da história não é preciso contar. Podem encontrá-la em qualquer manual prático de sedução.

Ele fazia lembrar um espião russo dos tempos da guerra fria, confessou Yara com um sorriso recuperado do manto vermelho em que se converteram os seus olhos de Madalena. O tempo foi passando e ela pouco sabia sobre ele. Em compensação, ele sabia quase tudo sobre ela. A sua frustração matrimonial. Os seus desejos insatisfeitos. O seu esforço por tentar agradar a um marido que não lhe dava o merecido valor. O amante (como é sabido ser a função de todos os amantes) preenchia as suas lacunas afectivas e amorosas. Em troca, ela agraciava-o com dádivas materiais que o verdadeiro amor (embora eu fosse tão crente nele como na existência de Deus ou da Branca de Neve e dos Sete Anões) dispensa para a sua consumação.

Viveu alguns meses no Eden absoluto. Começava já a pensar em declarar ao marido o soneto da separação, quando as mil e uma noites acabaram e o seu amante se transformou ou, finalmente, revelou o seu veradeiro carácter. As tardes amorosas num discreto apartamento alugado na periferia foram dando lugar a ausências e, com o tempo, a ameaças. Segundo ela, o cavaleiro que a resgatara às presas da infelicidade conjugal começou a revelar-se um vil vampiro monetário, exigindo avultadas somas que ela não conseguia pagar. O termo técnico correcto para o acto que ele praticava chama-se chantagem.

A situação tornara a atmosfera da sua vida irrespirável e, por isso, decidiu que precisava de ajuda. Claro que uma mulher vítima de chantagem não procura os alcóolicos anónimos para se livrar de um chantagista. Nem vai a uma igreja rezar Avés Marias e esperar que o Altissimo faça um milagre. Procura, antes, alguém envolvido nos meios sórdidos da existência urbana que seja capaz de competir com um ser desprovido de moralidade de igual para igual. Costumam chamar-nos, com pompa e circunstância, detectives privados.

Quando me procurou, Yara já arquitectara um plano. Mal elaborado, mas não deixava de ser um plano. Iria confiscar clandestinamente (termo técnico elegante para a arte de roubar) ao marido um esboço de Van Gogh adquirido num leilão em Zurique para entregar ao amante, esboço esse que renderia uma reforma eterna se comprado por algum coleccionador de arte, e, dessa forma, ela ver-se-ia livre dele para sempre. Marcara um encontro com ele ao final da noite num hotel barato para lhe entregar o bilhete de ida definitiva dele. Até aqui, tudo bem.

Porém, como em todos os planos da pólvora, as coisas sofrem reveses. Na verdade, acabariam mal para o amante chantageador. E também para mim. O golpe que sofri na cabeça revelava isso como uma evidência científica.

A cena estava bem montada naquele quarto. Romeu sucumbe no final da peça. Julieta esgueira-se furtivamente para fora do palco com um esboço raro de Van Gogh. E o valete de companhia da dama, eu, fica com a cabeça transformada no Passeio da Fama de Hollywood. Cheia de estrelas. O argumento da peça, viria eu a descobrir mais tarde, estava algo mal escrito. Ligeiramente distorcido.

Send in the clowns: O Menos Mau, O Medíocre e o Piorzinho


Retirado daqui.

A (suposta) democracia vai a votos daqui a quinze dias. Eles (os políticos) andam aí. Aí pelas ruas, distribuindo panfletos, beijos, abraços, em campanha eleitoral, onde se assiste (sempre) a mais do mesmo. Os debates eleitorais são insonsos, apenas condimentados pelos mesmos argumentos retóricos e vazios, ataques planantes de uma luta de galos.

As pessoas (ou como se dizia antes: o povo) dizem mal do governo, queixam-se do estado de coisas que provocam a azia e o mal estar de tudo estar mal e de nada (ou quase) estar bem. A culpa é do governo, de fulano A, Beltrano B ou Sicrano C que nos puseram nesta situação. São estas mesmas pessoas que ovacionam os candidatos de cada partido nas ruas, que vão para jantares-comício e aplaudem os discursos, que se deixam seduzir pelas palavras e pelos ataques aos adversários.

Casos obscuros, suspeitas, demissões, afastamentos, promiscuidades, golpes de bastidores, silêncios forçados, atentados à liberdade de expressão. Há quem (e são demasiados, quanto a mim) sinta já nostalgia de um Salazar que tinha um pulso forte e deixava as pessoas na mais completa ignorância quanto à realidade das coisas. Um Salazar nas finanças para recuperar a economia, um Salazar que acabaria com a insegurança nas ruas, um Salazar que não deixaria Portugal à mercê dos grandes patrões, um Salazar que acabaria com a impunidade e a corrupção que grassam nos sectores governativos do país.

Pergunto-me: sentir saudades de um ditador, não é sintoma de que algo vai mal com esta democracia? Alegrem-se os mais nostálgicos do Portugal de outrora: hoje vivemos num clima de medo. Medo de falar e inércia de pensar.

Preocupa-me viver num país que só se agita colectivamente (salvo raras excepções) quando é o futebol que está em jogo. Preocupam-me as notícias que vêm a público, os casos e as suspeitas escandalosas que descredibilizam os agentes políticos.

Talvez um espaço público tão amorfo e tão pouco activo como o nosso (entregue a umas quantas elites que fazem tudo para preservar o seu status) mereça os políticos que tem. Lugar comum: o país é feito por pessoas. Somos nós que os colocamos lá. Então porquê tanto queixume?

Votar é a única arma disponível no espaço democrático. O problema é que nas eleições legislativas que vão ocorrer daqui a quinze dias não se vai escolher o melhor. Porque, no actual panorama político activo português, não há melhores nem excelentes. Há os menos maus entre a mediocridade e o vazio geral. E é isso que vamos eleger: o mal menor. Porque alguém tem lá que estar. Sabe-se lá bem a fazer o quê. The show is about to begin, so send in the clowns...

Terça-feira, Setembro 08, 2009

The Tempting Step


Yew Chan 'Desires and anxieties'

"When night becomes the day, we'll be no more than a dream that never was more than a shadow leaning on the wall... the rumour of the two of us will be gone and lost forever in letters that will overcome our eternal madness..." (just a sketch of something that will never come out in a song...)

"I can resist everything, but temptation." (Oscar Wilde)

The cry of seagulls whispered to the wind
The sky hides so many puzzled and expected crossroads
So many signs of a new universe beneath our skin
That leave us in the perplexity of our unknown heavy loads

We chase after an idea of perfection
That hardly will ever reach its own end
Sometimes we forget how subtle is the dimension
Of a seagull flying through the piano strings

Simplicity and harmony
Are the keys for our troubled biographies
Between whirlwinds of desires and emotions
Single visions and momentary ecstasies

Matters of heart command the troubles of divided minds
Leaving us few free atmospheres to breathe
But music is still an island in these ever changing times
Feeding us with the highway to dream we need

Segunda-feira, Agosto 17, 2009

Gripe A: Tudo aquilo que ainda não sabe sobre o vírus

Depois do Lobo Mau e dos Três Porquinhos, também a VIP Miss Piggy foi posta em quarentena para evitar a propagação do vírus H1N1. Situação deveras lamentável para a estrela do showbiz americano.

Uma letra inspirada num dos maiores flagelos da actualidade, adaptada (mais ou menos) ao som das 'Dunas' dos GNR... Com a chancela da Montparnasse Flew Records

Gripe,
Vem aí a pandemia
Não há qualquer plano
Vacinas só lá pró final do ano
Vai ser a histeria

E a malta a espirrar
Sem saber bem porquê
Ninguém vai trabalhar
Fica tudo em casa a ver tv

(É a gripe)

As escolas fechadas
Sem planos de contingência
Milhares de crianças encantadas
Com tanta incompetência

(É a gripe)

Gripe,
Vem aí a pandemia
Assaltos aos antigripais
Tamiflu já não há mais
É melhor ir à farmácia do Santa Maria

(É a gripe)

Ouve-se alguém tossir
Toda a gente fica louca
Desatam todos a fugir
De quem não tiver máscara no nariz e na boca

(É a gripe)

Quarta-feira, Julho 29, 2009

Nostalgia do Vento

Montague Dawson 'Rising Wind'

To Phillip with friendship. For the conversations, coffes and cigarettes after lunch... May you hit the road of your dreams, my friend...

A humanidade permanecerá, para todo o sempre eterno celestial e terreno, uma concatenação de complexidades irresolúveis, em que as miragens da sensibilidade aportarão a um arquipélago de desejos e transcendências inconcretizáveis. O tempo presente é urgente e decorre sob o signo da expectativa ante o risco e a incerteza. De que os passos incertos, os silêncios guardados, os esboços projectados no papel, tudo isto encontre um eco numa outra margem de compreensão ansiada nas fortuitas madrugadas de horas insones.

O tempo presente segue o seu curso dominado pelos sinais astrológicos da urgência. A transcendência e o concretizar do direito humano a uma felicidade para lá do interlúdio breve é uma montanha que se desbrava com a coragem assumida de que tentar é errar e prosseguir. Uma montanha ladeada, tantas vezes, por contadições, demónios e silêncios.

Porém, à estância temporal e quimérica da vida sucederá o corte dos circuitos emocionais, a queda para fora do espaço, do tempo e da música. Das palavras e dos gestos. Dos olhares e das circunstâncias imperdoáveis em que a existência não perdoará nunca os medos pendendo sobre o ritmo extasiante dos desígnios e sopros intempestivos do coração.

Restará algo mais do que as ideias acendidas pela vontade de seguir em frente e contornar abismos? Restará algo mais do resistir ao conformismo com inteligência, humor, sensibilidade e rebeldia? Restará algo mais do que ludibriar as horas tristes com a flâmula de uma sã loucura de origem desconhecida?

Sim, permanecerá sempre adiada a tarefa de fundar a vida sob os auspícios de uma jovial e irreverente filosofia do amor. Permanecerá sempre adiada a concretização de uma paz total sobre todas as guerras que dilaceram o mundo da cega busca de riquezas materiais. Sagradas, diletantes e distantes utopias.

No entanto, a humanidade, a essência complexa e contraditória de homens e mulheres, os seus desamores e dissabores, serão sempre a cruz e a fonte inspiradora de uns quantos seres poéticos que sabem desenhar a vida em palavras insondáveis e letais.

Permanecerão marinheiros escutando as divagações selvagens do mar. Sentindo a nostalgia dos dias em que o vento conduzia navios num oceano vasto e incomensurável. Enquanto, em terra, homens e mulheres deixam escapar pelos dedos a urgência do tempo e o apelo do sonho, digladiando-se em batalhas e torrentes infindáveis. Que substituem a verdadeira tarefa de procurar o direito humano à felicidade para lá do mero instante.