Domingo, Abril 10, 2011

Esboço de uma Antropologia da Paixão

Brett Lynch 'Evening Lounge'

Não digas que o tempo foi uma armadilha que nos surpreendeu desnudados da nossa loucura e que o vento estiolava girassóis nos nossos rostos errantes. Não digas que só a lua se apaixona pelas metamorfoses do mar. Que só Isis esconde o cálice mágico sob o veneno do seu véu. Que já não existem tigres de fogo rugindo sobre os destroços de lava. Que as noites de outrora eram apenas luxúria de ruínas incendiadas. Não digas, não pronuncies uma única palavra. Quero-te selvagem nos anéis de fumo conspurcados no silêncio, esbelta ante o reflexo das auroras boreais nos espelhos do Equador. Quero-te assim. Tal como te encontrei. Eva orgulhosa do Primeiro Pecado. Pandora formosa ante os segredos exilados na caixa. Intocada pelos pântanos libidinosos das sombras, apenas o néctar das maçãs do teu rosto temendo a lâmina da adaga.
Contraditória como as cinzas remanescentes de uma folha em branco e frágil como o lírio depois do aguaceiro. Cálida como a virtude e sagaz como a sensata temperança. Natureza só... Contorno sensual de Terra, Perfil abstracto de Fogo, Essência etérea de Ar, Estátua aquariana de Água.
Assim, não digas nada. Não murmures nem uma só palavra. Quero consumar-te em catarses. Nos hinos dos solstícios! Nas fogueiras crepitantes em que nos perdemos, quando os salgueiros envolviam as crepusculares partituras da tua pele! Nas cicatrizes invisíveis da tua imagem que ainda queimam como brasa viva!

0 Suspiros inspirados pelo Ritmo das Palavras: