"É noite; todas as fontes, agora, falam mais alto. E também a minha alma é uma fonte que jorra. É noite; só agora despertam todos os cantos dos amorosos. E também a minha alma é o canto de um amoroso. Há em mim algo insaciado, insaciável, que se quer manifestar. Há em mim uma ânsia de amor, que fala ela própria a linguagem do amor." Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, «A canção da noite».
Embarcámos numa viagem ao fim da noite
Aos antípodas rebeldes do ser
Flibusteiros remando juntos uma nau de dissidências
Nos contornos taciturnos de um luar desejoso de se render
Às texturas do teu ventre
Atravessado por cometas, lobos e orquídeas
Um sabre trespassa o escudo da tua solidão
Um eco assassina os gritos cobardes do meu silêncio
Aportámos num trópico de nenúfares
Submergimos à queda no leito pelo encanto dos abismos
Onde a redenção se consome nas amuradas das palavras
E as mãos traçam órbitas profundas nas inquietações
Da penumbra poética. Do poeta que inscreve. Em vertigens incondicionais.
Os sinais audaciosos da fragilidade na luminosidade agreste do teu corpo.
Foi noite. Nos meus passos. Nos teus abraços. Foi sempre noite.
No exílio das dunas rosa carne dos teus lábios.
Silêncio...
Nos mares da noite que te canta
Na suavidade dos dedos esguios que te enlaçam
Na languidez dos anéis que nos devoram
Há um rumo para a combustão das asas
Uma muralha imune à cinza perene das derrotas
Onde a chama se torna fogo
E a lápide talhada um monumento
Sete dias se esvaíram. Sete noites passaram. E eu sem saber.
Nos labirintos frenéticos de um secreto luar.
Que cada noite é um cântico de rododendros declamando planetas
Em redor da incessante orgia de ternura ancorada ao Ser.
Que beijar a seara é renascer.
Que abandonar teus pulsos ao vento é castigo pior que morrer.
Que tudo cessa apenas quando a melodia dos braços envolvidos terminar.
Que tudo tem um nome. Mas não sei que nome te hei-de dar.
Que preciso de me perder em ti para me encontrar

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