Domingo, Maio 01, 2011

As Montanhas Abraçam-te com os Braços do Vento

Salvador Dali 'Person at the window'

"todas as estradas/radiosas que abrimos/irão achando sem fim/seu ansioso lugar/seu botão de florir/o horizonte/e que dessa procura/extenuante e precisa/não teremos sinal/senão o de saber/que irá por onde fomos/um para o outro/vividos" Mário Cesariny 'Lembra-te'

Sonho-te com a intensidade de um projéctil
disparado no silêncio das altas esferas,
galgando a gravidade atractiva do espaço
à velocidade de oitenta mil cavalos de ternura.

Escrevo-te na água,
incomensurável talvez para os meus olhos,
como paisagem lavrando girassóis
nos exílios bucólicos do meu cego respirar,
poisando em vertigem nos murmúrios e luxúrias do corpo.

As montanhas abraçam-te com os braços do vento
em abraços de terra salgada pelo mel dos vulcões
num crescendo furioso
de folhas estioladas ao berço das árvores,
na invulnerável quimera de um outono.

Surges na minha mente, plenamente pulsante
em porte de musa.
Cordilheira virgem assomando em túnica de fragilidade,
dádiva de tempestades,
oferenda que os trovadores invocam dos deuses.

Incarnas em mim com a subtileza de um furacão,
sem aviso,
aurora incendiando a ideia estéril e a rosa de marfim.
E toda a lucidez devém um torpor
colírio e desejo de caos criador,
aspirando à forma tutelar de uma pirâmide,
amena sede de seiva e orvalho.
As torrentes do néctar num crepúsculo de beijos cintilantes
apunhalando o coração que bate nos lábios.

Na cumplicidade acidental dos dedos,
à luz de um cardume celestial de núvens chorando compaixão,
diviso a tua sensualidade,
tecida à imagem da inocência das cigarras,
Mundo aberto ao Mundo:
Mulher Toda. Íntima e Integral.

0 Suspiros inspirados pelo Ritmo das Palavras: