segunda-feira, Outubro 29, 2007

Passos Tumultuosos

Edvard Munch 'Moonlight on the Shore'

A estrada foge no passo tumultuoso sobre o asfalto.
As palavras lavram solstícios nas sintaxes
e tecidos ocultos da respiração da pele.
A lua descodifica imanências poéticas nas irradiações palpitantes da penumbra da íris.
As éfigies nocturnas são unívocas e atonais
O mar revolve o silêncio e as ondas explodem,
transbordantes, na voz,
agrilhoada na garganta.

Quotidianidades XVII - Pequenas Coisas

Ela - Nunca mais aprendes. Ainda te vejo ficar lixado muitas vezes por causa de coisas que não têm importância nenhuma.
Eu - Sim, tens razão. Não consigo evitar. Às vezes, é mesmo mais forte que eu.
Ela - Mas não devias.
Eu - Eu sei que não. Mas já estou a melhorar. Descobri várias coisas sobre isso.
Ela - O quê?
Eu - Coisas interessantes. Entre elas que há quem ligue mais do que eu às coisas sem importância. As mulheres dos japoneses, por exemplo.
Ela - As mulheres dos japoneses?
Eu - Sim, nunca ouviste dizer que quem deve dar importância às pequenas coisas são as mulheres dos japoneses?
Ela (rindo) - Só tu ...
Eu - Só eu o quê?
Ela - Nada, nada...

Quotidianidades XVI - Parar é morrer!

(Ontem, depois do concerto da Patti Smith)

Ele - Ando cheio de trabalho. Já quase não sei o que é ir um dia para casa antes das onze da noite.
Eu - Pudera. Já tens o mestrado para fazer. Ainda por cima, ainda resolveste ir tirar direito ao mesmo tempo. Ainda és mais maluco que eu. Qualquer dia tens as malinhas à porta de casa.
Ele - Não consigo ficar em casa parado. Não quero entrar em rotinas.
Eu - Ai, como eu te compreendo tão bem. Parar é morrer. Por este andar, acho que vou andar na universidade até aos oitenta anos a tirar cursos, pós-graduações, doutoramentos...
Ele (rindo) - Epá, eu nem pensar.
Eu (rindo) - Pois, ainda não sei. Para já, é acabar a tese e depois fazer uns quantos cursos de línguas: italiano e alemão. Ah e melhorar o francês que, anda pelas ruas da amargura. Leio e traduzo relativamente bem. O problema é falar. O grego também não está de parte. Ainda consigo ler um bocado, mas já está muito esquecido. Mas acho que o turco vai primeiro.
Ele - Turco?
Eu - Sim. No outro dia estive para me inscrever num curso livre de turco lá da faculdade. Nem era caro. O problema eram os horários das aulas. Eram de manhã e estou a trabalhar a essa hora. Não dava.
Ele - Mas o que é que tu ias fazer com o turco?
Eu - Sei lá. Mas gostava de saber falar. E até posso precisar. Posso precisar. Imagina que me apaixono por alguma turca e vou viver para Instambul. Dá sempre jeito, não?
Ele (rindo) - E depois o maluco sou eu...
Eu - Epá, parar é morrer. E também não me vejo muito a entrar em rotinas de casa-trabalho-copos e copos-trabalho-casa. Ainda não sei o que vou fazer a seguir. Sei é que não vou parar por aqui.

domingo, Outubro 28, 2007

Cartas de Inglaterra IV

E, novamente, de Inglaterra para o meu telemóvel:

"Sem papas, nem aftas na língua: não se pode mudar fraldas a um país todo entornado para o mar! Uma nova estória urge aplausos: vamos descobrir o caminho maritimo para a lua sem lirismos: porque o que urge aqui é a descoberta de renovados papiros a-épicos enovelados no vento cósmico." *

A minha resposta. Num puro improviso.

"E propagando as epopeias, conquistaremos as nebulosas com gaivotas luzentes de aço, movidas a plutónio lírico. Nesse recanto esparso, soletrado a infinitude, aprenderemos que a efemeridade humana é um meio tempo, um lugar, uma névoa maculada pela lágrima, entre a insensibilidade dos tangos quânticos e a nossa galáctica ternura pelos astros."

* Alfredo Garcia, Inglaterra, Outubro de 2007.

Um Dia Normal em Joanesburgo: Lucky Dube (1964-2007)


Lucky Dube 'Back to my roots'

Um dos maiores músicos sul-africanos da actualidade. Um dos grandes intérpretes do reggae actual. Um caso (bem) à parte na reggae scene. Um reggae politicamente reivindicativo. Herdeiro dos grandes Jimmy Cliff, Bob Marley e Peter Tosh. Morto à queima-roupa por um assaltante que lhe tentava roubar o carro. Para uns, uma grande perda. Para outros, apenas mais um dia normal em Joanesburgo.

"When it comes to being Rasta, I say if 'Rasta' means smoking ganja and . . . going around shouting 'Jah Rastafari!', then I am not Rasta. But if it means fighting for justice, fighting for togetherness, the oneness, the love and brotherhood, then yes, I am Rasta."

segunda-feira, Outubro 22, 2007

Até à Eternidade: Deborah Kerr (1921-2007)


'Até à Eternidade' (1953)

De uma praia. Onde todos os sonhos começam e terminam. Para toda a eternidade (absloutamente inolvidável). A sensualidade de Deborah Kerr. Numa cena inesquecível. De um dos (meus) filmes (inspiradores) que (re) vejo. Constantemente. Para toda uma (longa e imperdurável) eternidade.

domingo, Outubro 21, 2007

Boulevard of Broken Dreams

Gottfried Heinwein 'Boulevard of Broken Dreams' (Elvis Presley como barman e Marilyn Monroe, James Dean e Humphrey Bogart como clientes. Uau! What a cafe!)

Não sei, mas... Parece que, cada vez mais, somos actores secundários nos filmes dos outros. E realizadores e actores principais de um filme que não era exactamente assim que queríamos que fosse realizado.

The pale smoke of a lonesome cigarette
In the shady tones of a dim moonlight
The stage, overwhelming, is already set
No sad clown plays a serenade for a nightingale in the heart of midnight
The lights are gettin' low
The actors are tired. They refuse every invitation. They have to go.
The gamblers fill the streets
And win the oscar for the flashiest planetary nightly show
The words tell no tales. Stories were stolen.
The mirrors show no faces. Expressions were swollen.
There's nothing but minimalistic virtual movers showing off in a fake screen
Shooting dices and throwing kisses away to the crowdy boredom stream.
This is where the twisted lines divide and a new boundary begins
Good luck, strangers! Welcome to the Boulevard of Broken Dreams!

O Desafio da Elisa

A Elisa lançou-me um desafio (ou corrente) bastante curioso no blog dela, ao qual não poderia deixar de responder.
Consiste, então, este desafio/corrente no seguinte:

1. Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2. Abra-o na página 161;
3. Procurar a 5ª frase completa;
4. Postar essa frase em seu blog;
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6. Repassar para outros 5 blogs.

1. Nada mais fácil. O primeiro livro que está na minha mesinha de cabeceira é.. and the winner is... este: Albert Camus, O Mito de Sísifo, Livros do Brasil, 2007 (Pois é, Elisawe. Nada de Beck, nem de Murakami. Desta vez, não...). Por baixo está A História da Eternidade do Jorge Luís Borges, em espanhol, mas como era o livro mais próximo de mim...

2. Abro-o na página 161...

3. Procuro atentamente a 5ª frase completa... Suspense... Eis, a frase...

4. Que diz o seguinte. Passo a citar: 'Camus só quer viver com aquilo que sabe e não quer trair a razão'. Voilá... Profundo, mas...

5. Esta não é a melhor frase do livro. Nem de longe. Aliás, nem permite compreender sequer o teor da obra. No entanto, desafio é desafio. Cards on the table...

6. Feito isto repasso então o desafio/corrente para as seguintes pessoas... and the winners are: A
JRL porque tenho curiosidade em saber o que ela andará a ler. O Windtalker porque não sei se andará a ler Corto Maltese ou algum romance policial (ou outra coisa qualquer). A Gata do Telhado porque provavelmente anda a ler o Franz Kafka (mera hipótese). O Jakim porque tem imensas 'eichitassões' (traduzindo para português legível: citações') no oceano das suas Meditassões. E, por último, o José Alexandre Ramos porque deve devotar à leitura a mesma paixão que devota à escrita.

El Corazón Manda (Fim)


Bill Evans 'The Person I Knew'

'If you don't love me, it does not matter, anyway I can love for both of us.' Stendhal.

Ela. Sentada ao piano. A tocar. Rachmaninoff. Rapsódia para um Tema de Paganini… Revi o corpo de Giuseppe, inerte no cadeirão. Sem respirar. Morto...
Não aguentei mais. Os meus olhos encolerizaram-se de raiva. O meu dorso arqueou-se de ódio. As minhas unhas saíram, em fúria, da concavidade das minhas patas. Corri vertiginosamente para ela. Katrina continuou a tocar. Saltei no ar, em direcção ao seu rosto. Pensei em cegá-la, mas o impulso que tinha tomado não fora suficiente. A minha pata direita, clamando por justiça, desferiu um golpe penetrante nos seus lábios. Desmoronou-se o império de baton e ficou apenas a ferida. A queimar. Em carne viva. O sangue a jorrar e os gritos dela amaldiçoando-me com todos os impropérios que conhecia. Ataquei de surpresa e fugi. Olhei para trás e um candeeiro voou na minha direcção, ao qual me esquivei agilmente. Katrina não veio atrás de mim. Chorava de dor. As suas mãos tentavam estancar o sangue que lhe corria, a fio, pelo peito. Pensei: ‘Agora, Giuseppe está vingado’. Arranquei-lhe uma parte do lábio inferior, tal foi a fúria com que me atirei a ela. Se pudesse tê-la-ia desfeito com as minhas unhas. Não consegui evitar o que sentia. O coração manda. O meu também. O que fiz não traria Giuseppe de volta. Mas sentia-me melhor comigo mesmo. Com a sensação de dever cumprido.

Fugi daquela casa e nunca mais voltei a ver Katrina. Ando agora pelas ruas de Lisboa, o meu berço e origem. Prefiro ser gato vadio por uns tempos, do que viver com aquela mulher debaixo do mesmo tecto. Até encontrar novo poiso. E alguém que não goste de Rachmaninoff. Ou de Katrinas.
Voltarei, então, à minha vida normal. A passar tardes tranquilas ao sol. A pensar em Angélica que, definitivamente e não sei porquê, não me sai da cabeça. Aquela gata deve ter qualquer coisa de especial. E eu, modéstia bem à parte, sou uma estampa de gato. Inesquecível. E vou correr atrás dela, até ela ser a musa dos meus miados. Para lhe provar isso mesmo. É o que diz o meu coração e o coração não mente. O coração manda. Até num gato como eu...

El Corazón Manda (Cont.)


Bill Evans 'The Person I Knew'

'If you don't love me, it does not matter, anyway I can love for both of us.' Stendhal.

Os últimos dois meses tinham sido os mais felizes para o meu dono desde que Lídia morrera. Giuseppe encontrara alguém, humano, com quem compartilhar tudo o que possuía. É a isto que os humanos chamam, creio eu, o amor. Deve ser porreiro, mas cada vez mais abençoo ter nascido gato e não precisar de tal coisa. Para mim, é absolutamente desnecessário. Sim, aqui o Schubert também é romântico. Talvez não tanto como o outro, mas ambém pensa em Angélica. Acha – e sublinha bem: acha – que está apaixonado por Angélica. Mas jamais se casaria com ela. Como sabem, nós, gatos, prezamos muito a nossa independência. Apenas a leve menção da palavra compromisso faz-me ficar logo com o pêlo eriçado, em alerta e com a fuga preparada. Fujo disso como da água e dos cães vadios na rua que me querem aborrecer.

A vida do meu dono parecia ter conhecido um segundo fôlego. Ouvia-o dizer a Katrina que queria voltar a Nice, que queria mostrar-lhe toda a Itália e levá-la ao coliseu de Roma. Claro que o sentimento que ela nutria por ele não era a inversão da palavra Roma. De todo. Eu via isso nos olhos dela, mas Giuseppe, apaixonado, não.

Chegara o Outono entretanto e a saúde de Giuseppe começava a piorar nesta altura. Até eu, que sou gato, espirrava por vezes. Não sei do que seria. Talvez uma alergia qualquer. O coração de Giuseppe ficava mais fraco em Outubro. Lídia morrera em Outubro. Talvez fosse por isso. Lídia morrera num desastre de automóvel. À hora da sua morte, Giuseppe tocava a Rapsódia para um Tema de Paganini, em Madrid. Desde então, jamais a tocara. Nem a ouvira sequer. Katrina queria tocá-la ao piano, ao que Giuseppe sempre se recusou com dureza no olhar, o único momento áspero que assisti do meu dono para com a sua nova esposa. Claro que Katrina sabia de tudo isto. Giuseppe contara-lhe tudo aquilo que não se pode contar a uma mulher como ela.

E foi assim que Katrina ficou viúva. Foi por isto que Giuseppe morreu. Encontrei-o eu morto, às seis da manhã de um dia de Outubro. O seu corpo pendendo inerte no cadeirão. O aparelho de alta-fidelidade a tocar incessantemente a Rapsódia para um Tema de Paganini de Rachamninoff. Precisamente o que ele não podia ouvir. Porque o seu coração não aguentava. E, se não sabem, em qualquer situação da vida, o coração manda.
A morte de Giuseppe foi notícia de jornais em toda a Europa. Prestaram-lhe condolências e homenagens de todo o tipo. Vieram algumas centenas de pessoas ao seu funeral.

Dias depois, já ninguém se lembrava de nada. A memória dos humanos ainda é pior do que a dos gatos. Katrina depressa abandonou a sua pose de viúva chorosa, substituindo-a pela de herdeira digna. Eu deixara de passar os dias ao sol para ficar deitado junto ao cadeirão de Giuseppe, em manifestação de saudade pelo meu dono. Quase deixei de comer e pensava que Katrina tinha planos para se livrar de mim o mais depressa possível. Na verdade, nunca morremos de amores um pelo outro.

O veredicto da morte de Giuseppe tinha sido insuficiência cardíaca. Mesmo sendo impossível um gato ser formado em medicina, eu sabia que isso era apenas o termo técnico para o que se poderia designar como intoxicação musical. Tinha andado a fazer investigações por conta própria e descobri que o aparelho de alta-fidelidade estava programado para repetir, vezes sem conta, a peça de Rachmaninoff. Giuseppe morrera porque Katrina o deixara ouvir a Rapsódia para um Tema de Paganini. Fatal para o coração do meu dono. Tecnicamente, fora o coração que falhara. A verdade, aquela que não posso contar a ninguém por ser gato e não saber falar, é que foi Katrina quem matou Giuseppe de uma forma subtil e fria. Sórdida. Despertando feridas por cicatrizar no coração dele.

Fiquei, durante alguns dias, a pensar na minha vida. Em Angélica, em mim, no meu dono e em como os humanos são tão ávidos por bens materiais. Tinha que decidir o que fazer. Não queria continuar a habitar a mesma casa que a responsável pela morte do meu dono. E foi ela quem me ajudou a tomar uma decisão. Rápida e resoluta. Decidida. Rachmaninoff também ajudou.

El Corazón Manda (Cont.)


Bill Evans 'The Person I Knew'

'If you don't love me, it does not matter, anyway I can love for both of us.' Stendhal.

Ela tinha nome de furacão e a sua beleza arrastava os olhares de quem a via passar. Alta, esbelta, curvas bem delineadas e muito bem conservada para os seus 43 anos. Katrina era, sob qualquer ângulo, uma bela mulher. Qualquer homem desejaria ser trapezista e lançar-se nos seus braços sem rede. Até eu, que sou gato, me apercebia de que havia nela qualquer coisa que magnetizava os olhares na sua direcção.

Nunca pensei que Giuseppe fosse concretizar o que me dissera uma vez. Como estava a ficar velho e sentia a falta de calor humano naquela casa, ia contratar uma secretária. Eu não gostara nada disso. Nem por um momento, me agradara a ideia de partilhar o espaço físico com outro humano, para além do meu dono. Apesar de as minhas patas terem muita força para arranhar os sofás da sala e deixá-los num estado lastimável – Giuseppe era muito complacente e conivente com as necessidades das minhas unhas - , pouco ou nada poderia fazer para o impedir de contratar alguém.

De início, Katrina começou por ser apenas uma mera secretária, tratando de certas incumbências que Giuseppe tinha, devido à sua considerável fortuna. O meu dono tinha duas contas bancárias com alguns zeros chorudos em Roma, uma casa de verão em Nice que estava abandonada, porque Giuseppe não punha lá os pés desde que a sua esposa falecera há uns anos e ainda o apartamento de Lisboa. Talvez tenha sido isto que fez Katrina aproximar-se mais de Giuseppe. Mais do que devia.

Com o tempo, Katrina começou a tornar-se mais íntima do meu dono e eu não ronronava propriamente de satisfação com o facto. Ela era, também, grande amante de música clássica e - coincidências - de Rachmaninoff. Pasme-se. Também tocava piano. Mal, mas tocava. Para gaúdio de Giuseppe, que, além de uma secretária/enfermeira/assassina dos seus momentos de solidão, tinha agora uma dedicada aluna, a quem podia legar todo o seu saber musical.

Katrina tinha (ou fingia ter) uma paciência hercúlea para ouvir Giuseppe falar sobre música. O meu dono discorria prolongadamente sobre o porquê de Schubert – o compositor, não eu – protagonizar para ele a essência do romantismo alemão, sobre a fúria apaixonada das suas sonatas e a extrema sensibilidade que irradiava das suas sinfonias. Já conhecia aquela conversa de fio a pavio porque já fora eu o interlocutor silencioso de Giuseppe. Entre mim e Katrina havia três diferenças essenciais, mas que a catapultaram para o centro das atenções do meu dono: o número de patas para andar, o que fazia com a humanidade batesse a condição felina por largos pontos; o facto de ela não ter bigodes e eu ter, isto é, o facto de ela não precisar de usar máquina de barbear depunha muito em favor da beleza do seu rosto; a linguagem, ou seja, o facto de poder responder às conversas que tinha com ele. Eu podia miar, mas o meu dono jamais me entenderia. Eu não falo esperanto, nem ele... 'felinês'.

O hábito de o acompanhar diariamente no seu passeio ao jardim foi também interrompido. Giuseppe fazia-se agora acompanhar por Katrina e não por mim. Isso deixava-me triste por dois motivos: primeiro, porque a cumplicidade que existia entre mim e o meu dono estava a desvanecer-se e, depois, porque deixara de ver Angélica, a gata que não me saía da cabeça. A ausência da visão de tão suave gatinha começou a fazer-me pender para a melancolia e a deixar-me cada vez mais irado com Katrina.

Para lhe fazer saber isso mesmo, cada vez que ela se chegava perto de mim, demonstrava-lhe o meu desagrado, rosnando de ciúme e rancor. Ela deixou de se chegar tanto a mim e foi o melhor que ela fez. Aquele apartamento começava a ser demasiado pequeno para a nossa convivência.

Chegou então o inesperado. A boda de Giuseppe e Katrina. Vitória da mulher-iceberg. E do cinismo. E do calculismo. O testamento que a fez herdeira de todos os bens do meu dono foi o seu bouquet de noiva. O casamento, claro, seria um dos mais rápidos da história. Nem chegaram a entrar na magia nupcial. Tudo porque não se pode nunca confiar numa mulher. Tudo porque não se pode tocar a Rapsódia sobre um Tema de Paganini. Tudo porque o coração manda.

El Corazón Manda


Bill Evans 'The Person I Knew'

'If you don't love me, it does not matter, anyway I can love for both of us.' Stendhal

Corro atrás dela por entre o canteiro de túlipas no jardim. Ela pára. Olha-me provocadoramente e diz ‘Não me consegues apanhar’. Depois, foge. E consigo ouvir o eco do seu riso miado a ficar para atrás. A fluir na minha direcção. Um eco envolvente como um abraço de alguém que se ama. Continuo a persegui-la por entre as flores. Não vou desistir. Esta gata anda-me a dar volta a cabeça. Estou a ficar completamente apanhadinho...

Desperto, estremunhado. Com a luz do sol a ferir-me os olhos cor de mel. Fecho-os e tudo o que consigo ver são as notas tocadas por Bill Evans no aparelho alta-fidelidade que se espalham pela sala. O meu dono, refastelado no cadeirão, fita absortamente o tecto e fuma cachimbo. Encanta-o a música de Evans, como a mim me encanta estar deitado tardes inteiras na almofada que ele colocou no parapeito da janela da sala, a que chama de Blue Note Room. Nunca consegui compreender bem porquê. Apesar de ter uma inteligência superiormente desenvolvida para gato, a minha condição felina veda-me a compreensão a certas coisas que se passam no mundo dos humanos.

Normalmente, era assim que decorriam as tardes. Eu, esticado na almofada, de olhos fechados, a deixar o sol espalhar-se no meu dorso e a sonhar com Angélica, a gata cor de creme do apartamento do lado, que me anda a fazer olhinhos sempre que me encontra lá em baixo no jardim. Quer dizer, umas vezes olha-me como se eu fosse uma estampa de gato inesquecível, outras como se praticamente nem sequer existisse.
Por mais anos que viva, nunca vou compreender o que se passa na cabeça das gatas. Suponho que se passe o mesmo no mundo dos humanos. Pelo menos, oiço sempre o meu dono dizer que, ao longo da sua vida, nunca compreendeu as mulheres. Mas esta gata anda-me a dar voltas à cabeça e a fazer-me contorcer os bigodes de curiosidade. Se há coisa que sempre fui, é curioso. E também nunca consegui resistir aos miados doces de uma gatinha linda que passa diante de mim. Por isso mesmo, vou ter que tirar esta história a limpo.

O meu dono imita-me no seu quotidiano. Costuma passar as tardes na minha companhia, a ler e a fumar cachimbo, sentado na sua poltrona. Chama-me Schubert. Disse-me que era esse o meu nome, em homenagem ao grande compositor. Se bem que não entenda para que precise de um, costumo arrebitar as orelhas sempre que o oiço chamar-me assim. Por uma questão de boa educação e fidelidade ao meu dono.

Ele chama-se Giuseppe. Tem 78 anos, é italiano e foi um famoso pianista clássico no seu tempo. Disse-me, muitas vezes, que tinha sido um dos melhores interpretes das sonatas de Mozart e Schubert que a Europa havia alguma vez conhecido. Estes dois, juntamente com Rachmaninoff, eram os seus amores musicais. Sim, sem esquecer Bill Evans, mas isso era desde que ele tinha assistido a um concerto dele no Estoril, só por curiosidade. Conheço de cor e salteado as obras para piano destes três compositores, porque o meu dono sentava-se frequentemente ao piano a tocá-los. E fazia sempre questão de me ensinar as passagens mais importantes, os toques de génio, como se eu, algum dia, fosse pisar os palcos do Royal Albert Hall para tocar piano. A princípio, estranhei bastante aquele som, mas, hoje em dia, converti-me a ele e já não consigo passar sem música.

Giuseppe vivia em Lisboa há 30 anos. Apaixonara-se pelo sol, pelas pessoas e também, e principalmente, pela sua esposa, Lídia, já falecida, de nacionalidade portuguesa. Para além de Schubert, Mozart e Rachmaninoff, os seus outros amores eram Bill Evans, os livros, o cachimbo e os gatos. Giuseppe sempre tivera gatos ao longo da sua vida e dizia entender-se melhor com eles do que com a maior parte dos humanos. O que eu compreendia perfeitamente. Os humanos, de facto, são tão contraditórios que deviam estar todos esticadinhos num divã de psicanalista a espiarem os seus pecados do inconsciente. Ok, é uma outra forma de dizer que são todos loucos. Sim, sou gato, mas também sei ser irónico.

Quase não tínhamos visitas, a não ser, de vez em quando, Arsene Lupin, o famoso ladrão internacional, a quem o meu dono devotava uma profunda amizade. Lupin passava sempre dois a três dias com Giuseppe sempre que vinha a Portugal, digamos, 'trabalhar'.

Tanto quanto sabia, o meu dono denotava apenas três fraquezas que o faziam estremecer: a solidão, o seu coração que, por vezes, batia mais devagar do que era suposto e a Rapsódia sobre um Tema de Paganini de Rachmaninoff, que fazia o coração de Giuseppe bater mais depressa do que devia. Incompreensivelmente. Ou talvez não. O coração tem as suas razões. O coração manda. E, mais tarde, compreenderia porquê. Os dias passavam-se assim. Até Katrina ter entrado pela porta do apartamento uma certa tarde.

sexta-feira, Outubro 19, 2007

Porreiro, pá! Mas...: De Lisboa com (Euro)Amor...*

Também publicado em Cafe Babel Lisboa

A Cimeira de Lisboa trouxe o (quase) esperado: o Tratado Reformador (futuro Tratado de Lisboa) nasceu, depois dos entraves levantados pelos estados-membros - Itália e Polónia - terem sido ultrapassados. Principais obreiros: a presidência alemã, liderada por Angela Merkel, que ousou dar um pontapé no marasmo em que se traduzira o período de reflexão desde 2005 e a presidência portuguesa, pela determinação e empenhamento postos na concretização do mandato que lhe foi legado pela presidência alemã. Ambos estão de parabéns.


Com a assinatura do Tratado, no próximo dia 13 de Dezembro, e a sua ratificação em 2009, a Europa deixa para trás o impasse institucional em que havia caído, após o não convicto expressado em referendo de franceses e holandeses à defunta Constituição Europeia, em 2005.
Retirados do Tratado os elementos que nele poderiam soar ainda a Constituição - a bandeira e o hino -, existe, finalmente, uma base comum de trabalho que permite prosseguir o aprofundamento da Europa a uma voz comum. Somos mais europeus desde ontem? Política e institucionalmente, caminhamos para isso. Em relação às (ainda muitas) desconfianças que nutrimos quando ouvimos falar de Europa, estamos ainda longe de sermos 'europeus' por desejo e afirmação inequívoca.


O Tratado de Lisboa representa apenas mais um passo, um pequeno passo, em direcção a um projecto que Jean Monnet e Robert Schuman sonharam há mais de cinquenta anos. Um projecto feito de conquistas lentas. De integrações graduais. A Europa, como se pode verificar pelas divergências que se colocaram ante a presidência portuguesa nestes últimos três meses, é ainda um terreno imenso a ganhar. Que se está a conquistar a par e passo. E que levará ainda décadas a maturar no plano da identificação com a 'Ideia de Europa', do que ela representa.


Uma Europa comum está cada vez mais presente diante dos nossos olhos. E não só no espaço político. É um facto que há que aceitar quer-se queira, quer não. Mas nem por isso devemos deixar de perguntar: este Tratado é uma conquista dos políticos europeus ou expressão da vontade dos 493 milhões de habitantes que constituem os 27 estados-membros? A existir um referendo em todos os países para a aprovação do Tratado, e não apenas a sua aprovação por via parlamentar (que acontecerá seguramente em quase todos os países, à excepção da Irlanda, que já deixou claro ir realizar um referendo), estaria ele condenado ao sucesso ou ao fracasso? A recusa dos governos europeus em realizarem referendos nos respectivos países não representa um clima de medo que os actores políticos têm de que os cidadãos - os verdadeiros interessados e protagonistas dessa tão esperada Europa - discordem do rumo que se está a a seguir e vetem democraticamente o avanço do projecto europeu? Não é este medo um sinal de que há ainda muito trabalho a fazer em matéria de subsidariedade (uma das vitórias do Tratado de Nice, em 2001) em prol da Europa? De que a cidadania europeia é ainda um espaço por realizar?


Parece que ainda há lições passadas que não estão bem claras: a Europa não pode ser construída com demasiada pressa (como ficou patente com o fracasso da Constituição), nem longe dos seus cidadãos como tem acontecido até agora. A integração política que traz o Tratado de Lisboa é apenas uma de muitas dimensões de uma Europa que faz do seu lema 'A unidade na diversidade'. Uma das mais importantes, mas não a única que convém aprofundar. O futuro reclama uma maior aproximação dos políticos aos cidadãos e um maior esclarecimento sobre o que representam os valores europeus. Dizer que a Europa não é apenas uma fonte de subsídios e fundos estruturais que vêm de Bruxelas para o desenvolvimento dos estados-membros ou a facilidade com que, hoje em dia, se percorre o espaço europeu devido às tarifas praticadas pelas companhias low cost. É tudo isso. Mas também é mais, muito mais, que isso.


Apontamentos que ficam no ar para que o sucesso deste momento concretizado ontem em Lisboa seja mais um passo a dar em frente numa Europa que é, cada vez mais, o nosso espaço comum. Herança do passado e projecto de futuro.

quinta-feira, Outubro 18, 2007

Um Dia na Vida de Monsieur de Montparnasse

Rene Magritte 'L' Homme au Chapeau de Mellon'

Até há algum tempo atrás, o Inimigo Público (suplemento humorístico que sai com o Público à sexta-feira) costumava publicar a agenda (humoristacamente adulterada) de figuras públicas. Desconheço porque deixou de o fazer, mas, para dizer a verdade, sinto a falta dessa rúbrica. Por isso mesmo, resolvi deixar aqui aquilo que costumam ser alguns dos meus dias, um tanto ou quanto frenéticos e agitados, mas sempre produtivos. A bem dizer, um verdadeiro stress de um jardineiro contemporâneo.

06h30m - Acordar. Apanhar o elevador do sétimo céu e descer ao rés-do-chão da árdua realidade para enfrentar um novo dia. Dar os bons dias ao mundo e fazer exercícios de yoga zen com as pestanas para expulsar os maus karmas da pele.

06h45m - Acordar o gato. Explicar-lhe a importância de Freud no pensamento contemporâneo, juntamente com Marx, Nietzsche e Sartre, porque é que o Kaká, neste momento, é melhor jogador que o Cristiano Ronaldo e porque é que o Benfica é capaz de ser campeão lá para 2017 se o Rui Costa jogar até aos 46 anos na forma em que está agora. Dizer-lhe que não pode ficar até às quatro da manhã a ver as 'Donas de Casa Desesperadas' na Fox, senão mando cortar a TV Cabo.

07h - Acordar a gata. Dizer-lhe para ter juizinho e não se esticar nas horas que passa ao telemóvel, senão fica sem comer granulado de foie-gras francês durante uma semana. Adverti-la quanto às infinitas horas que ela passa no MSN.

08h - Ver o sol nascer e a fazer a oração do dia pelas duas deusas do meu templo: Scarlett Johansson e Jennifer Morrison.

8h45m - Levar os gatos ao ginásio para fazerem alongamentos com as orelhas e 400 flexões com as patas dianteiras.

09h30m - Responder aos mails do Bono, que me anda a implorar para escrever letras para o próximo álbum dos U2.

10h - Ir ao MSN e teclar com o Al Gore sobre as alterações climáticas. Não me esquecer de lhe dar os parabéns por ter ganho o Nobel da Paz.

11h - Ler Maquiavel e o Marquês de Sade ao som dos Prelúdios do Rachmaninoff.

12h - Ir buscar os gatos ao ginásio. Comprar o 24 Horas e o Correio da Manhã para ficar a par das últimas em matéria de coscuvilhices e histórias tristes da vida.

12h30m - Almoçar.

13h30m - Explicar ao gato a diferença de estilo entre os Beatles e os Stones no rock inglês dos anos sessenta e traduzir-lhe a letra do 'No Woman, No Cry', do Bob Marley, a ver se ele a entende de uma vez por todas. Colocá-lo frente ao piano para ver se ele aprende a tocar a Sonata nº 11 do Mozart.

14h - Teclar com o Durão no MSN sobre a actual situação da União Europeia e escrever um mail aos gémeos Kaczynsky a pedir para a Polónia não lixar a aprovação do Tratado Reformador.

15h - Continuar os estudos aprofundados sobre Maquiavel e o Marquês de Sade ao som do Mussorgsky e Stravinsky.

16h30 - Actualizar o Dançamos no Mundo.

17h - Escrever um mail à Margarida Rebelo Pinto a ver se ela precisa de algum texto meu para plagiar. Não esquecer de lhe pedir para não fazer cópia integral das minhas palavras.

17h30m - Traduzir para português fragmentos dos contos eróticos da Anaïs Nin e do Kama Sutra.

19h - Ouvir o Miles a tocar trompete e ver o sol a pôr-se. Falar com a chaga do S.Pedro a ver se ele adia a chegada do Outono. Ver o Noddy na RTP 2.

20h30m - Jantar no Gambrinus com o Lobo Antunes. Perguntar-lhe se ele me ensina a escrever como ele, se tem um kit de primeiros socorros para usar quando tudo arde e pedir-lhe para me contar histórias dos tempos dele em África. Acompanhados de uma garrafa de Quinta do Carmo ou Cabeça de Burro. Reserva, claro está.

22h - Pôr os gatos a ver os Patinhos na RTP, obrigá-los a lavarem os dentes e começar a pensar em mandá-los para a cama.

22h30m - Debater com o gato as ideias que tenho para a tese e ver se ele concorda comigo quanto ao rumo a seguir para os próximos capítulos sobre o papel da ciência no projecto tecnocientífico da Modernidade.

23h - Fazer a oração da noite pelas duas deusas do meu templo: Scarlett Johansson e Jennifer Morrison.

23h30m - Arranjar as coisas para o árduo dia seguinte.

0h - Dar duas caixas de Xanax e três de Prozac aos gatos, caso eles não tenham sono.

01h30m - Ir buscar a tabuada para me ajudar a contar carneiros se tiver dificuldades em adormecer.

Quotidianidades XV - Saudades

(Na mesma, ao telefone)

Ela - Quando é tomamos café? Há tanto tempo que não nos vemos.
Eu - Quando me convidares.
Ela - Estou-te a convidar agora.
Eu - Não, desculpa, mas assim não dá. Tenho que receber o convite por correio e em papel timbrado. Caso contrário, não vou.
Ela (rindo) - Opá, não sejas assim. Que mau.
Eu - Mau porquê? Acho que só estou a ser um bocadinho burocrático. Mais nada. Mas queres tomar café comigo porquê?
Ela - Porque será? Saudades tuas, não?
Eu - Ok, desculpa. Não tinha percebido...
Ela - Pois, és tão ingénuo quando queres.
Eu (rindo) - Euuu? Não sou nada. Só me estava a fazer. Há uma diferença muito grande entre o ser e o fazer. Olha, tomamos café para a semana, pode ser?
Ela (rindo) - Aleluia! Ele aceitou. Estava a ver que não.
Eu - Claro que aceito. Ou pensas que és só tu que tens os reactores de saudades nivelados no máximo?

Quotidianidads XIV - A Voz

(Ao telefone)

Ela - Uau, que voz. Assim derretes-me. Falas sempre assim ao telefone?
Eu (rindo) - Claro que não. É a tua pessoa que exerce um efeito fascinante nas minhas cordas vocais.
Ela (rindo) - Pois, pois. É mesmo isso. Bem que podias trabalhar na rádio.
Eu - Por acaso, já me perguntaram várias vezes se trabalhava. E olha que também canto bem. Tenho uma amiga que me está sempre a dizer isso. Diz que eu me pareço com o Chico Alberto.
Ela - Quem é o Chico Alberto?
Eu - É o Sinatra. Francis Albert Sinatra. Chico Alberto para os amigos.
Ela (rindo) - Ah sim?
Eu - Sim, mas não sei se o facto de ela ser surda que nem uma porta terá alguma coisa a ver com isso. Talvez tenha.
Ela (rindo) - É capaz, é capaz...
Eu - Agora ando a estudar umas propostas de trabalho que me fizeram. Há duas pedreiras que me querem contratar.
Ela - Pedreiras? Para quê?
Eu - Gostaram imenso da minha voz. Dizem que para partir pedra não há melhor.
Ela (rindo) - Pois. Talvez quando mudares de voz, comece a acreditar em ti. Mas só um bocadinho.

terça-feira, Outubro 16, 2007

Framboesa

Todd Gipstein 'Shadows of a Tree and a Dancing Woman'

O ocaso meneia a centelha no vidro
Entras na sala,
irradiando impressões da rua acesa
O corpo húmido,
molhado pelas algemas da chuva
A pele maculada de gotículas, arquejando framboesa
Delicioso vapor, barca de um beijo degustando a uva

Abandonas o exterior à momentânea dissidência,
vozes e cidades gastas que te vergam a consciência,
os socorros e os afãs,
as ilusões, os falsos pudores e os elans
tocam os dedos o teu rosto com a tenacidade dos heróis
e a urgência de titãs
o respirar formula equações de desejo,
nau amotinada ao fervor e resgatada ao ensejo
de ilibar uma âncora entre o recato dos ombros
motim de desacatos e arroubos entre escombros

A voz rouca acende o anseio de um cigarro,
o corpo dolente, soçobrante na fragilidade do afago
solidão hedonista de sombras de barro
no abraço espasmódico, os corpos ausentam-se um no outro,
cristalinos e falsamente serenos como as vagas de um lago

A recordação tinge de culpa a cicatriz
acorre o vento à memória
deixas uma lágrima correr, alimentando uma história
à custa de apegos, aconchegos e álibis
o barulho do tempo, imparável lá fora, devolve-nos os resquícios
os horários, as contendas, as luxúrias e bulícios
a cortina medeia o desenlace e a estrada
entre o nosso ocaso e a chuva na rua acesa
deixo esmorecer nos lábios uma ideia incrustada
de que o tempo não tenha apagado da tua íris o aroma de framboesa

segunda-feira, Outubro 15, 2007

Geometrias do Olhar


U2 'Desire'

Mais um com um pendor e influências profundamente nietzschianas...

Nem mestres, nem escravos, aliem-se as distâncias em pontos de fuga equidistantes às margens do olhar, esconjurem-se os quadrantes e fronteiras que erguem e separam os nossos seres em guerra, seres guerreiros, lutando por nada palpável, tudo menos o perdurável, nada tal e qual como aquela primeira manhã de verão que arrancou o Universo às suas trevas. Desabem-se as geografias irreconhecíveis, as montanhas sem bandeiras, conciliem-se os opostos e aceitem-se as diferenças que nos constituem como formas do Olhar, um Olhar que quer ver para lá das aparências, para lá dos fragmentos, que quer ir à raíz dos fundamentos, à forma originária do nosso Amar. Devolvam a pena aos poetas e deixem-nos redesenhar as geometrias do mundo.
Entreguem a tela aos pintores e façam-nos sublimar os vértices do nosso espaço num soneto de espingardas sorridentes. Libertem os filósofos e estes que se entreguem à meditação da solidão originária do ser que procura, para lá da sua limitada imperfeição, a consumação da imperfeição redentora do Ser nos agrilhos da Liberdade desta humanidade incessantemente indisciplinada e rebelde, criadora de mundos, mundivivências, mundidesejos, mundisintonias, mundipalplitações, municiando a vida de sentidos para os nossos Olhares.
A música acompanha o Olhar no preenchimento de espaços tridimensionais e vazios, dá-lhes forma pela sensibilidade, representa o ponto mais longínquo que nos separa do paraíso perdido. Informe-se o mundo de uma outra substância motora da vulnerabilidade dos nossos olhares, reivente-se o Ver, aprendam-se as cores e deixem-nas correr qual Pégasos inconstantes, numa mitologia do espaço íntimo.
Reiventem-se os tempos perdidos nos espaços banais e espaços novos com um imenso tempo de aventura por percorrer. Calem-se, de vez, todas as armas. Globalizem-se a tolerância e a aceitação do estranho a nós. Que cada bala escrita a sangue seja um alimento que mata a fome global de ideias que nos move em busca da eterna reivenção de nós e na procura dos outros.
Intolerize-se e incolere-se a nossa indignação contra a estupidez, contra a violência, contra a crueldade, contra os buracos negros e mesquinhos dos nossos espaços, contra vidas que se querem de poder pela glória de mal mandar.
Late nos nossos afectos a imperiosa corrida aos armamentos de brandura e carinho. Urge declarar uma guerra nuclear e fraticida contra os espaços de ditadura e corrosão dos sentimentos, contra a asfixia dos que nos querem ver robotizados, mecanizados e amorfos, sem auto-crítica.
Clama a geometria do olhar por uma nova forma reiventada de tudo isto que é a nossa vida, por uma cristalização da nossa esfera comunicacional, sintonia de sensações, erradicação de tudo o que nos faz morrer por dentro.Clama a geometria do olhar pela Vida. Criadora. Sempre!

Stevie Wonder numa Manhã de (Muito) Sono


Stevie Wonder 'Fingertips'

Começar o dia às oito da manhã, mais sonolento que um urso acabado de interromper o seu estado de hibernação na primavera, a beber café, a fumar um cigarro e a ver e ouvir o Stevie Wonder a cantar isto, só pode mesmo significar que o dia vai correr bem e que há certo tipo de sons que afugentam (bem, mais ou menos) o sono. Não é assim, caro M.?

quinta-feira, Outubro 11, 2007

Desde o Centro do Furacão* : Strictly Personal Storms from Me to Myself

Rene Magritte 'The Human Condition'

* Expressão roubada a John Lennon. Tal como ele dizia, o centro do furacão é sempre o lugar mais calmo.

Desconstruir emoções é como navegar em areias movediças. Desenredar um emaranhado babélico de contradições. Um fazer-se à estrada no mapa da incerteza. Do risco assumido de nem sequer chegar perto. Risco. Sempre risco. De confrontação. De perplexidade. E assombro. Os sussurros da intimidade deixam-nos assim. Na diletante dúvida de não saber o que fazer com as palavras. Com os gestos ou os silêncios. De conseguir verbalizar ou não.

Cá dentro, desde perspectiva exacta do centro do furacão existente em mim, há optimismo e auto-confiança. Espontaneidade e detonação de riso nos lábios circundantes. Sentido de humor e teimosia acérrima. Conflito e intolerância quando a injustiça e o autoritarismo são usados como armas mesquinhas na relação de um ser a outro. Paixão imoderada e desmesurada quando se fala do que se gosta. Tempos roubados a horários quando a conversa apaixona e o tema discorre quase sem precisar de rédeas. Fogo, intimismos, redenções, transparências e um certo misticismo.
Há laivos momentâneos de egocentrismo, vaidade e arrogância. Medo absoluto da mediocridade, ausência, indiferença. Puro deleite provocativo. Indignação perante a violência e a estupidez e espírito crítico exigente. Ironia mordaz e tiradas absolutamente cáusticas. Busca incessante que desaloja a paz de espírito e ternura ante gestos inesperados. Pontos obscuros, obtusos, incompreensíveis e indizíveis. Perfeccionismo e curiosidade indomável. Vontade de conhecer, explorar e descobrir. O eterno porquê da surpresa por perguntar tantas vezes porquê sobre quase tudo e obstinação em não ficar conformado, de braços cruzados à espera que a vida aconteça por si só. Esforço de compreensão e leitura de silêncios e olhares. Demora, prazer na contemplação e no fruir de coisas pensadas e sentidas. Medo do fracasso. Recusa em ficar calado e timidez velada que foge, titubeante, para a frente. Quietude preguiçosa e esforço de percepção clara da realidade envolvente. Veia ultra romântica, flutuantemente poética e idealisticamente sonhadora. Aspereza cega que magoa absurdamente. Aconchego e protecção feroz dos seres amados. Admiração pelas coisas surpreendentes e pelas pessoas fantásticas. Desejo de liberdade que não se deixa agarrar. Utopias a realizar. Esquecimentos e falhas provavelmente imperdoáveis.
Esferas que se deixam tocar e conquistar facilmente. Outras que necessitam da combinação exacta para se abrirem.
Há dualidades jamais reconcialiáveis numa plenitude harmoniosa: segurança e caos que se agitam. Calma e tempestade que se combatem. Equilíbrios e quedas que se enredam em si próprios. Vivências e construções edificadas e desordenadas. Vontade de partir e de ficar.

Quotidianidades XIII - Hum... Pois...

Ele - Vou ver Moonspell ao Coliseu, no dia 31.
Eu - Eu vou lá três dias antes, no dia 28, ver Patti Smith.
Ele - Patti quem?
Eu - Patti Smith.
Ele - Isso é o quê?
Eu - É rock. Anos setenta. É a 'mãe' da PJ Harvey.
Ele - Ah, pois. É muito antigo para mim. Eu ainda nem era nascido. Não conheço.
Eu - Mas olha que o som dela é muito porreiro. Agressivo. Devias ouvir um bocado nem que seja só para conheceres.
Ele - Se calhar. Mas eu só gosto de música de agora. Isso já é muito velho.
Eu (a pensar umas quantas coisas, mas muito diplomaticamente ) - Ok, se tu o dizes...

quarta-feira, Outubro 10, 2007

Dependências Musicais dão... Subsídios Fenomenais!

Roger Tullgren é sueco e tem 42 anos. Portador de um estranho vírus que não consta nos anais da história da medicina, encontra-se a receber um subsídio mensal de invalidez no valor de 400 euros do governo da Suécia por ser portador de uma grave doença chamada Heavis Metalis Primitivus Dependentia. Traduzindo, Tullgren é dependente de... Heavy Metal (!!!!). A notícia pode ser lida na íntegra aqui.
Depois de ter investigado os sintomas nos manuais de Freud e Jung, descobri que padeço quase da mesma doença de Tullgren. No entanto, com ligeiras alterações e refinamentos. Eu sou portador de um vírus raro, denominado Mundis Musicae Aeterna Dependentia. Isto é, sou dependente de jazz, blues, soul, reggae, rock, música clássica e world music...
Supondo que estes géneros de música se encontram mais bem cotados nos subsídios concedidos pelo governo sueco, penso que encontrei uma autêntica mina de ouro. Senão, reparem. Se forem 500 euros por cada tipo de música (no mínimo qualquer um deles tem que ser forçosamente mais bem pago que o heavy metal), isto, a multiplicar por sete, dá 3500 euros mensais. Líquidos. Eu ser dependente de música e ser pago principescamente para sê-lo até ao fim dos meus dias? É o sonho de qualquer melómano. O paraíso na Terra.
Será que também me posso candidatar a um subsídio do governo sueco por dependência musical? Amanhã já vou mandar um mail à Embaixada da Suécia em Portugal a pedir mais informações. Ou, em alternativa, ligar para os serviços da Segurança Social de Estocolmo.

Dizem que é uma Espécie de Democracia

Sua Alteza, Don José I, o excelso Imperador da Rosa Choque Democrática (?). Retirado daqui.

Já se começa a tornar banal (e isso é muito mau) ouvir notícias sobre eventuais ameaças e tentativas que colocam em causa um dos pilares fundamentais de um estado de direito, vivendo num regime democrático: a liberdade de expressão. Para os mais desprevenidos no que toca à história, Portugal constituiu-se como uma democracia a partir do dia 25 DE ABRIL DE 1974.

Primeiro, as alegadas pressões que a redacção do Público sofreu quando rebentou o caso (muito mal esclarecido digam lá o que disserem) da licenciatura de José Socrates. Depois, a perseguição de que foi alvo Fernando Charrua, devido a uma piada proferida em privado sobre o mesmo caso José Sócrates e tudo o que daí se seguiu. Agora, a incursão de dois polícias à paisana no Sindicato de Professores da Região Centro, de onde levaram, segundo este
comunicado, dois documentos de informação.

Das duas, uma: ou as autoridades deste país andam demasiado susceptíveis e acham-se acima da democracia que tanto prezam nas comemorações do dia da Revolução de Abril ou, de repente, instaurou-se, em Portugal, um notável saudosismo (não fosse essa a nossa imagem de marca) dos tempos salazaristas e pidescos de um outrora ainda muito recente. Porque será que o nosso país, marcado pela emergência de um certo clima de temor e medo que se está a propagar em silêncio e quase - eu diria - inconscientemente, me começa a soar cada vez mais ao 1984 do Orwell ou ao Admirável Mundo Novo do Huxley? Já temos medo (alergia) de pensar. Por favor, não nos incutam agora (também) o medo de falar. O pior é quando o mesmo tipo de acontecimento (a perda do direito à liberdade de expressão) começa a ser posto em causa mais do que uma vez

Não falando agora noutros exemplos pitorescos de 'neo-salazarismo' que têm acontecido (sim, porque 2007 tem sido uma espécie de 'recordar é viver'), apetece-me perguntar assim, em voz alta e desta forma:

'MAS QUE MERDA DE DEMOCRACIA É ESTA QUE SE ESTÁ A VIVER ACTUALMENTE EM PORTUGAL?'

Dizem que é uma espécie de democracia. Churchill disse que este era o menos mau dos sistemas políticos, mesmo com todos os seus defeitos. Churchill, obviamente, não conheceu a equipa liderada por José Sócrates (também, diga-se de passagem, não perdeu rigorosamente nada). Eu concordo com ele. Mas acredito, cada vez menos, que seja esse o nome, por essência, que se possa dar aos desejos (também eles inconscientes. Ou talvez, a pouco e pouco, já nem tanto) das almas que governam este país.

Quotidianidades XII - Tertúlia Existencial ou a Filosofia e outras Mulheres

Ele - Acreditas em Deus?
Eu - Não, nem por isso. Não consigo sentir, nem ter fé.
Ele - Mas acreditas em alguma coisa?
Eu - Acredito na natureza e no universo. E que há esferas da realidade que a razão humana, por si só, não consegue explicar, nem compreender totalmente. A fé é uma delas. É preciso ter cuidado. Estas coisas têm muito que se lhe digam.
Ele - Então, mas não te preocupa a existência de Deus? És filósofo. Devias estar a pensar nessas coisas.
Eu (rindo) - Pois, mas sou um filósofo mais terra-a-terra. Sempre fui mais dado à ética, à filosofia política e à filosofia da história. Agora ando mais interessado pelas questões ambientais e europeias. Deus também me interessa, mas há outras coisas que me preocupam mais.
Ele - Então a filosofia não diz que Deus existe?
Eu - Depende. Na idade média era quase impossível afirmares que não. Se o fizesses, tinham logo uma fogueira à tua espera e viravas churrasco mais depressa do que os frangos de Moscavide. Depois disso, alguns pensadores dizem que sim. Outros negam totalmente a existência de Deus. É complicado. Mas estás enganado numa coisa.
Ele - No quê?
Eu - A filosofia não tem resposta definitiva para isso. Nem para nada.
Ele - Pensei que a filosofia já tinha as respostas para tudo.
Eu - Pelo contrário, o objectivo da filosofia é fazer perguntas. Questionar as coisas. Por isso, não chega a nenhuma conclusão definitiva e anda há 2500 anos à volta dos mesmos problemas fundamentais. Respostas é ali na porta ao lado com a secção da religião. Aí já tens a papinha toda a feita. Não tens que pensar em nada, porque eles já pensaram tudo por ti.
Ele - Mas a filosofia serve para alguma coisa afinal?
Eu - É o que ando a tentar descobrir. Mas garanto-te uma coisa.
Ele - O quê?
Eu - A filosofia é como uma mulher. Gosta-se dela sem se saber porquê.

Retroprojector de Sonhos: Non Sense Rendezvous

Salvador Dali 'Voyeur'


Rolling Stones '(I Can't Get No) Satisfaction'

Ele deixa o seu olhar percorrer minuciosa e lentamente os títulos de todos os livros encarcerados na prateleira da secção de viagens. Procurando, talvez, traçar um initinerário de fuga ou somente embalar a raiva que lhe verga os ombros com o peso de um ídolo de mármore.
Ela vagueia por ali. Ziguezagueando os dedos no cabelo e formando elipses na atmosfera com as madeixas que se afoitam ansiosas pelo reclinar melancólico do rosto. Estonteada pela luz e totalmente ao desnorte. Sem destino aparente e com ocaso marcado, provavelmente numa mesa de café. Ambos primam pela ausência. Nenhum dos dois se encontra verdadeiramente ali.
Ele faz menção de tirar um livro da prateleira, mas algo o demove. Talvez não seja aquele. Talvez não seja ainda esta a história. Ou talvez muitos outros já se tenham acercado antes daquelas páginas lidas por ele na resenha de uma revista de crítica literária, de que nem o nome se recorda. Por entre um nocturno de Chopin e um candeeiro aceso. Uma madrugada torpemente insone em que mendigou, sem sucesso, uns raros minutos de sono a um aglormerado astrológico de divagações arrebatando incautamente o seu espírito e um whisky apontado a um coração selvaticamente psicanalisado pelos estertores e limbos da memória. Repleto de espontaneidades indiscriminadas.
Ela procura reconfigurar as medusas entrelaçantes do telefonema que recebeu ainda há minutos. Que a levara a soltar um espasmo emudecido apenas pelo obtuso marear das buzinas e dos motores dos automóveis contorcendo-se em desarmonia bidireccional no asfalto da exultante avenida. Sentira os joelhos tremer, como se as cordas de uma guitarra vibrassem violentamente engolfadas pelos decibeis cacofónicos e insensíveis de um voraz amplificador abandonado ao desvario dos aplausos estéreis num palco demasiado solitário.
Nenhum dos dois está verdadeiramente ali. Próximos um do outro, os seus olhares cruzam-se num tom deferente de agudez monocromática, contorcida pela desapaixonada ambivalência da suas desalinhadas individualidades biográficas. Com as devidas ressalvas para os seus respectivos acidentes de percurso. Surdos a todas as categorizações e deslumbramentos empáticos.
Ele regressa placidamente à contemplação amorfa da estante, entretendo o espírito com destinos que não tem qualquer vontade de cruzar. Ela, sem vontade de partir, segue, determinada, o rumo do seu desnorte aluado, olhando fixamente os ponteiros do relógio, aguardando o repto ciciante das sombras.
E prosseguem as metastas aduzidas no desencontro. Sem se encontrarem ali. Sem alguma vez terem estado verdadeiramente ali.

domingo, Outubro 07, 2007

Jazz no Outono - Uma Banda Sonora (Im)Perfeita

Todd Horne 'Blues Silhouette'

A chegada do outono não me deixa muito feliz. O amanhecer cinzento dos dias, o anoitecer grisalho da maioria das tardes antes das sete horas, a ausência dos tons vivos no crepúsculo e as núvens que resgatam ao céu o seu revigorante azul não são propriamente colírio para os meus olhos. Nem para certos momentos em que - já sei - o meu estado de espírito se tornará algo meditativo.Outonal q.b. em alguns dias.
Invariavelmente, o outono transporta-me sempre para odisseias sonoras de jazz. Não sei se oiço mais jazz - até porque é raro o dia em que não o faça - no outono do que em qualquer outra época do ano, mas dou-me conta de que agora anseio mais por ter Coltrane, Miles, Bird, Jarrett ou Chet Baker sempre a meu lado.
Neste momento procuro uma versão de 'September Song' de Kurt Weil, tocada pela orquestra de Les Brown que anda escondida algures no meio da secção jazz dos meus cd's. Swing de grande orquestra para a voz que penso ser de Doris Day, antes de ela se tornar a diva das comédias bem comportadas do cinema americano dos anos cinquenta. A versão de Ute Lemper não é exactamente a que me apetece ouvir agora. Por preguiça de correr cd a cd da minha (já algo significativa) colecção em demanda de tão almejada pérola sonora, fico-me por Oliver Nelson e 'Stolen Moments', mais fácil de encontrar. Tudo e nada a ver. Começo a pensar em culpar o outono pela minha vontade de ouvir (mais) jazz.
Talvez porque nele encontre músicas que convidam à fuga do pensamento, à placidez e quietude próprias de um dia de outono. Quanto a mim, a lista de músicas que deixo a seguir, apesar da escolha ser quase um dilema existencial, faria sempre parte de uma banda sonora perfeita para um qualquer dia outonal. Não só estas, saliente-se, mas principalmente estas.
A saber:

1 - Oliver Nelson 'Stolen Moments' . Um elixir para roubar momentos à ditadura dos horários. Com Eric Dolphy, Freddie Hubbard e outros senhores. Diz-se ser a obra-prima de Nelson.
2 - John Coltrane 'Lush Life' . Intimismo puro, subtraído à enorme sensibilidade de Coltrane. Diálogo fabuloso entre o sax de Mr. 'Trane e o piano de Paul Chambers.
3 - Ben Webster 'Tenderly' . Ben a solo. Para acompanhar as folhas a cairem das árvores. Ternamente.
4 - Miles Davis 'Falling Leaves'. É um hino ao outono. E o momento em que Cannonball Adderley liberta o seu saxofone para acompanhar Miles é marcante. Perfeito para um fim de tarde sereno.
5 - Keith Jarrett 'I loves you, Porgy' . Gershwin tocado por Keith. É preciso dizer mais? It ain't necessarily so. I guess.
6 - Wayne Shorter 'Infant Eyes' . Wayne introspectivo e melódico. Antes de entrar para o lendário quinteto de Miles Davis dos sixties. Para acompanhar um dia de chuva.
7 - McCoy Tyner 'Satin Doll' . McCoy, de folga do quarteto de John Coltrane, 'brinca' com um standard de Duke. A ouvir se a boa disposição se perder por qualquer motivo.
8 - Ahmad Jamal 'Poinciana'
. Primeiro estranha-se, depois entranha-se. A seguir a isto é só deixarem-se levar pela leveza do piano de Ahmad. E pelo ritmo contagiante.
9 - Stan Getz 'One Note Samba'. Hipnotizante tocar uma nota só? Getz acha que não. E improvisa em estilo cool sobre uma das (muitas) melodias compostas pelo Maestro António Carlos. Jobim, evidentemente.
10 - Charlie Parker 'Out of Nowhere' . Aqui primeiro entranha-se e depois estranha-se. A capacidade estonteante de improviso de um músico ímpar. Que nos leva de nota em nota como se fosse tão fácil tocar assim.
11 - Maria João e Mário Laginha 'Parrots and Lions'. A voz de Maria João comove. O piano de Laginha envolve. E o resto é magia. Sem mais palavras.
12 - Bill Evans 'Peace Piece'. Evans, se não fosse pianista, seria certamente filósofo. Pelo que a sua música faz pensar. E sentir.
13 - Nina Simone 'See Line Woman'. Não é bem jazz. Não é bem blues. Não é bem soul. É tudo isto mais África. Raízes negras à superfície dos tambores. E Nina, incomparável, bem lá no fundo.
14 - Cassandra Wilson 'Traveling Miles'. Tirando Nina, é a voz feminina que actualmente mais oiço, jazzisticamente falando. A ouvir. Enquanto se espera. Talvez que passe o outono.
15 - Dave Brubeck 'Rising Sun'. Talvez o sol nasça assim por estes dias. Com a mesma tranquilidade com que Paul Desmond e Brubeck tocam aqui. Se me lembrar, hei-de ouvir esta música num dos (muitos) amanheceres outonais que me esperam.

sexta-feira, Outubro 05, 2007

Trajano e o Mar

La Coruña, Torre de Hércules*, Outubro de 2007.

La Coruña, a alguns metros da Torre de Hércules com o Cabo Finisterra no horizonte, Outubro de 2007.

*Construída (ou reconstruída) pelos romanos em Brigantia (hoje La Coruña) no século II da nossa era por ordem do imperador Trajano. Serviu, durante o esplendor do império romano, como farol de navegação. Durante a Idade Média converteu-se em fortificação, até que, em 1682, o Duque de Uceda encarregou o arquitecto Amaro Antune da sua restauração. Hoje, para além de ex-libris histórico da Corunha, é um local com uma paisagem de cortar a respiração.

Trajano caminhava sozinho naquela tarde, recitando passagens de Virgílio. Nos seus raros momentos de solidão, antes de planear minuciosamente os detalhes de uma nova conquista, o imperador deixava elevar da sua voz alguns dos versos da Eneida que sabia de cor. Os seus olhos, pérfidos e negros, ávidos de sangue bárbaro, indagavam diligentemente o horizonte.
- Até este céu, todo este azul, é meu. Está sob o meu domínio. Pertence a Roma. Pertecem-me. - pensou de si para si o imperador.
A figura incontornável de Júlio César, a quem odiava pelos seus feitos heróicos, semeava na sua mente o tumulto. Trajano odiava César, e os ímpios que se submetiam à sua recordação, pela sua glória. Queria ser maior que César. Maior que os deuses. Maior que o mundo.
Décadas mais tarde, escreveria o estóico Marco Aurélio, talvez pensando em Trajano: 'A arte de viver é mais parecida com a luta do que com a dança, na medida em que está pronta para enfrentar tanto o inesperado como o imprevisto e não está preparada para cair'.
Também Trajano não estava preparado para cair. Do pedestal da eternidade que o consagria como um dos maiores imperadores que a história de Roma iria conhecer. Não cairia nunca. As campanhas da Germânia trouxeram-lhe a fama e o prestígio de mestre nas artes bélicas. Marcaram também uma promissora vida talhada para os feitos heróicos. Pela ambição compulsiva e desmedida. De perfil altivo e solitário, Trajano foi coroado imperador. O primeiro não nascido em Roma. Ninguém ousava afirmá-lo publicamente, mas, por este motivo, era alvo de intrigas na alta sociedade do império e corriam rumores quanto a uma conspiração para o depôr e assassinar. Era igualmente alvo de subtis discriminações por, nas suas veias, não correr o sangue dos ancestrais do Latium. Nerva, nas suas últimas horas de vida enquanto timoneiro do império, confidenciara aos seus conselheiros que Trajano iria ser nomeado imperador pelo seu talento bélico. Não pela sua cultura. Lamentava Nerva que o seu sucessor não citasse Horácio ou Cícero com o mesmo ardor e verve com que eles afloravam aos seus lábios. Trajano, por não ser oriundo de Roma, não estava imbuído do espírito das grandes figuras que glorificavam a alta cultura romana.
Trajano sabia de tudo isto. Sentia-o na pele, apesar da autoridade impiedosa que exercia. Sagaz, destrinçava o despeito oculto no elogio e a promiscuidade que brotava dos actos de vassalagem que lhe prestavam. Sabia também que, mesmo entre os seus homens de confiança, haveria sempre algum Brutus encapotado, capaz de atentar cobardemente contra a sua vida. Daí prezar os seus raros momentos de solidão e intimidade com o mar. 'O mar ceifa vidas, mas a ele escapa a perfídia, a lisonja falsa, a estultícia e a traição', escrevera o imperador num dos seus diários de campanha, algures numa das batalhas que travou. Trajano pensava assemelhar-se ao mar: o mar é solitário. E imenso. Tal como ele se considerava a si mesmo.
Por trás de si erguia-se, imponente, a Torre de Hércules, que atemorizava os habitantes de Brigantia. Circulava o mito de que, em cada noite de lua nova, ouviam-se os gritos dilacerantes do Gerião, derrotado por Hércules após três dias infindáveis de árdua batalha. Trajano não ligava a essas superstições. Imperador por direito e tenaz ante o medo, aventava a hipótese de que os habitantes locais - esses bárbaros escravos como lhes chamava - tomassem o troar do vento nas rochas pelos gritos que se diziam serem pavorosos, segundo alguns relatos que chegaram aos ouvidos do Consul da província de Hispania.
Trajano voltou-se para a Torre. Deixou o seu olhar percorrê-la do topo à base. Sorriu por ela se lhe afigurar tão semelhante a si. Feita à sua imagem. Vertiginosa. Imensa. Intransponível. Nem a mais violenta das tempestades conseguiria derrubá-la, garantira-lhe Gaius Sevus Lupus, o arquitecto português que o imperador trouxera da Lusitânia para projectar e supervisionar a sua construção.
Nem o mais numeroso exército bárbaro me conseguirá, alguma vez, derrubar, pensou Trajano, enquanto caminhava serenamente olhando o mar.
A sua cabeça enchia-se de planos de batalha. De novas conquistas. De povos inteiros convertidos ao poder incomensurável de Roma. Nos seus olhos advinhava-se a sede de glória, a concupiscência e a avidez de um guerreiro que aspirava a entrar na galeria dos deuses. Dizia-se que, quando os olhos de Trajano brilhavam intensamente, a vitória numa batalha era garantida. Fora assim na Germânia, fazendo fé no que diziam alguns dos generais que o acompanharam nessa expedição.
Mas, perante o mar, o olhar de Trajano transmutava-se. O guerreiro cedia o lugar ao homem brando. Nem que fosse por um instante, invadia-o uma certa paz de se poder sentir a si próprio, pensar-se a si mesmo, em silêncio. Por mais generosas que fossem as alvíssaras concedidas a qualquer poeta que cantasse os seus feitos - e não eram poucos os que, por mera vontade de lhe agradar ou compelidos a tal, o fizessem com maior ou menor talento -, era o mar que ele reconhecia como igual. Como irmão de sangue e companheiro de confidências sem retorno. Embora a dureza fosse uma constante sua, quase se poderia supreender nos seus olhos uma certa ternura que o oceano lhe inspirava.
O imperador fitou demoradamente o esparso azul maritimo e deixou escapar em voz alta para ele:
- Só tu me compreendes. Só tu és imenso. Vasto. Invencível. Glorioso. Tal como eu. Assemelhas-te a mim, como se a tua espuma e o meu sangue tivessem fruído do mesmo berço. Tu e eu somos unos. Tu e eu representamos o medo. As lágrimas. A dor. A perda e a morte. Tu e eu somos poder e vontade de submissão.
Depois de proferidas estas palavras, Trajano deixou o seu corpo sulcar a sua sombra fendida nas rochas e fechou os olhos, suspirando pelo momento de uma nova batalha que ampliasse ainda mais o poder e a glória de Roma. Ou, talvez, mais que tudo, o seu poder e a sua própria glória.

quinta-feira, Outubro 04, 2007

Equívocos da Foz Minguados em Azul - Porto Azulis Blues

Foz, Porto, Setembro de 2007

Cidade escura e sombria? Há quem lhe chame assim. Eu prefiro chamar-lhe encanto e evocar esse tom obscuro como parte da sua forma de respirar. Equivocado? Talvez. Porque não? E se assim for? Que importa? Esta cidade é um poço de equívocos para quem se adentra profundamente nela. Eu também me equivoco. Teremos sido feitos um para o outro e só agora descobrimos isso?

Foz, Porto, Setembro de 2007

Cidade mistério? Urge desnudar-lhe a alma e demandar-lhe os sons que a movem em todos os seus cantos. Perguntar por ela! Nas cores das casas. Nas ruas molhadas pelas lágrimas da chuva. Nos olhos e sorrisos tristes de quem passa. Esse Porto Sentido que alguém descreveu num belo poema.
Umas quantas vozes, sussurantes quase, lamentam os seus tons univocamente cinzentos. Onde? Se o que o horizonte me oferece são distintas gradações de azul? Onde está o cinzento apenas? Serei eu daltónico ou visionário? É que só consigo divisar o azul longitudinal e melancólico dos timbres suaves de uma tarde em início de outono.

Foz, Porto, Setembro de 2007

Um manto atapetado de azul nublado cala toda e qualquer palavra que ameaça nascer, precoce, nos lábios. O diálogo é perene. Efémero. O contemplar convida ao silêncio. Introspecção. O silêncio à meditação. O horizonte acolhe no seu seio os solilóquios do espírito. A distância aproxima a percepção e convoca algumas proximidades. A percepção torna-se gradualmente mais clara. Diáfana. Nítida.
Depois esvai-se subtilmente como o fumo. Afasta-se brandamente e a sombra toma conta do olhar. Levada pelo rumorejar outonal das ondas. Pelo vento que mantém os cabelos presos ao ar, em riste. Para um qualquer insondável ponto do Atlântico. Para um outro porto. Talvez para uma outra foz.

Gato Preto, Gato Branco: Dilemas de um Fotógrafo Amador


Gato Preto em Braga. Setembro de 2007.

Gato Branco no Porto (Ribeira). Setembro de 2007.

Sou completamente doido, vidrado, fascinado por gatos. Daí que, em viagem, quando me deparo com um felino elegante e fotogénico, não hesito e a luz do flash incide sobre ele, marcando-o para a posteridade dos meus diários de bordo. Normalmente resulta bem. Os respectivos modelos não primam pela timidez, logo não manifestam laivos de oposição às minhas veleidades fotográficas. Por vezes, até me agradecem com um miado simpático, ao que correspondo com um afagar tacteante e carinhoso no pêlo deles.
Assim aconteceu em Braga. Embora não esteja bem nítida, porque o fotógrafo de serviço, distraído já nem ele se lembra com o quê, se esqueceu de ampliar a imagem da máquina e só se deu conta demasiado tarde de que o modelo fotografado tinha diminuído de tamanho ou ficado anão de repente, a mancha negra na janela representa um simpático gato preto de olhos verdes e olhar curioso que contempla o mundo circundante através da sua janela. Talvez por já estar habituado às luzes da ribalta das máquinas fotográficas dos turistas que passam, nem sequer pestanejou quando o fotografei. Em silêncio, o meu simpático modelo deixou-se reproduzir integralmente na foto.
O mesmo não se passou com o felino que serviu de modelo no Porto. Assumindo-se como uma verdadeira estrela glamorosa, bem tentei que ele virasse o focinho para a objectiva, mas Sua Majestade, em verdadeira pose de diva fotogénica de Paris ou Milão, não se dignou a deslocar o seu pescoço para a direita uns quarenta cinco graus que fossem, de forma a que os seus olhos ficassem visíveis na foto. Bati suavemente no vidro. Chamei-o. Mas Sua Alteza, impassível e altiva, nada. Nem sequer um segundo pestanejou. As suas orelhas, a mexerem-se, bem me ouviram a chamá-lo, mas o tranquilo gato não se dignou a reparar na minha presença. Pose 'Do not disturb, please'. Ainda fez menção de virar o focinho para o flash, mas ficou-se só pela intenção.
Terá pensado talvez: 'Hum, isto de andar sempre a ser fotografado de graça tem que acabar. A partir de agora, quem quiser que eu sirva de muso fotogénico vai ter que ligar para o meu empresário e transferir umas largas centenas de euros para a minha conta bancária. E tem que ser com marcação prévia, porque eu sou um gato muito importante e a minha vida não é só estar aqui a ver quem passa na rua. Para mais informações sobre mim, queiram entrar na porta ao lado, por favor'.
Enfim, celebridades...

Quotidianidades XI - A Corda dos Chineses

Apenas algumas horas (breves) no Porto revisitado (que saudades). Tempo suficiente para tirar dezenas de fotografias e ser apanhado numa delícia de conversa como esta. UMA COMÉDIA ABSOLUTA.
Ladies and Gentlemen, entre MONTE DE BURGOS, AMIAL e o HOSPITAL DE SÃO JOÃO com sotaque da invicta reproduzido. Um verdadeiro mimo de riso (foi difícil, muito difícil, não me desmanchar a rir à frente destes dois hum... pois... senhores tão... bem educados) e... espanto.
Moral da história: Nem tudo o que é made in China tem certificação de controlo de qualidade. Caro cliente, se comprar algum produto defeituoso numa loja de chineses, exija o seu dinheiro de volta. Faça alarido. Manifeste-se. Preencha o livro de reclamações. Ou, em alternativa, APRESENTE QUEIXA AO PRÓPRIO MAO TSÉ-TUNG, THE MAN HIMSELF.
ESTE TEXTO NÂO É ACONSELHÁVEL A: FREIRAS, PADRES RECÉM-ORDENADOS, EUNUCOS, JOÃO CÉSAR DAS NEVES, ANTÓNIO GUTERRES, CATÓLICOS DEVOTOS, RATOS DE SACRISTIA, MEMBROS DA IURD, IGREJA MANÁ, TESTEMUNHAS DE JEOVÁ, SATÂNICOS DE SÉTIMO DIA (E ALGUMAS HORAS SEGUNDO O MERIDIANO DE GREENWICH), SATÂNICOS DE NOVE SEMANAS E MEIA (E UNS QUANTOS MILÉSIMOS DE SEGUNDO PELO CALENDÁRIO GREGORIANO), PRÉ-SATÂNICOS TÍMIDOS QUE ATÉ SE CONVERTIAM AO SATANISMO (NÃO FOSSE O FACTO DE TEREM MAIS MEDO DE LEVAR UMA SOVA DOS PAIS DO QUE A POSSIBILIDADE CADA VEZ MAIS REAL DE PORTUGAL ESTAR A VOLTAR À PRÉ-HISTÓRIA NOS TEMPOS QUE CORREM), CRISTÃOS RECONVERTIDOS (À LUZ DA FÉ NO SENHOR), PARTIDÁRIOS DA DEFUNTA REGIONALIZAÇÃO (QUE PARECE MESMO ESTAR ESQUECIDA), FERNANDO GOMES (O HOMEM DO METRO), PINTO DA COSTA (O SENHOR DOS APITOS), MINISTRA DA EDUCAÇÃO (QUE AFIRMA QUE A DITA SENHORA ESTÁ MUITO BEM E RECOMENDA-SE E QUE O PORTUGUÊS QUE SE ENSINA NAS ESCOLAS É MELHOR QUE FENOMENAL) AH E TAMBÉM A PESSOAS QUE TENHAM APOPLEXIAS GALÁCTICAS (OU PRENÚNCIOS DE AVC'S) COM OS ERROS QUE SE PODEM COMETER NA LÍNGUA PORTUGUESA. QUEM NÃO SE ENQUADRAR NAS CATEGORIAS SUPRA MENCIONADAS (OU NÃO SEJA ASSIM TÃO SENSÍVEL A LIGEIRAS DESVIAÇÕES ORTOGRÁFICAS INEVITÁVEIS PARA NÃO DESVIRTUAR O DIÁLOGO DE TODA A SUA SENSIBILIDADE LÍRICA E DAS SUAS ESPLENDOROSAS ONOMATOPEIAS À TEIXEIRA DE PASCOAES) ENCONTRA-SE, DESDE JÁ, CONVIDADO A LÊ-LO NA INTEGRA.

Ele 1 - Atão e o Manel? Há muito tempo que não o vejo.
Ele 2 - Num soubestes o que lhe aconteceu?
Ele 1 - Não.
Ele 2 - Tentou suicidar-se por causa duma gaija. Com uma corda ao pescoço.
Ele 1 - Cum carago. Atão inda num foi desta que ele foi no caralho?
Ele 2 - Ah, pois num foi não.
Ele 1 - A corda debia de ser fraca, carago. Pá próxima dou-le eu a corda. Até ponho-la ao pescoço com um nó bem forte e tudo. Pá próxima num falha, carago. Garanto-te eu.
Ele 2 - Num se compreende aquele gajio, pá. Tentar matar-se à conta duma mulher, carago. Onde já se biu? Eu lá me mataba por causa duma gaija? Gaijas há prá aí aos montes. Nem que seja as putas. Foda-se, que merda de homem.
Ele 1 - Opá, o gaijo sabia-a toda. Digo-te eu. Faz-se de carente e, oh despois, as gaijas boas andam todas de roda dele, mais o caralho. Sentem pena dele, 'ai coitadinho dele' e o caralho, e andam sempre à beira do gaijo. O cabrão traze-as todas na mão. Faz-se de coitadinho e come-as todas.
Ele 2 - Ah pois é. Olha que tu, se pudesses, também as comizi-as a todas, carago. Num benhas com histórias que eu já te conheço.
Ele 1 - Atão, mas isso era certinho, carago. Num sou paneleiro. Só num punha era a corda ao pescoço por causa de nenhuma. Isso é que não, caralho.
Ele 2 - E olha que já num é a primeira bez que o cabrão diz que se mata. Quando ele andaba com a Ana, sabes, a filha do Roscas Tripeiro, tu conheces-zia, e ela quis deixá-lo, o gaijo também fez o mesmo. Disse que se amandaba da D. Luís abaixo e tudo, se ela fosse imbora. Ela ficou com ele e ,oh despois, ele ainda pôze-lhe os cornos com a irmã dela.
Ele 1 - É o que eu te digo. O cabrão diz que é carente e as gaijas num o largam, pá. Depois pa um gaijo num sobra nada, carago.
Ele 2 - Ele é mas é um ganda otário. A corda que o gaijo usou debia de ser dos chineses, oh caralho. Só pode.
Ele 1 - Num faz mal. Pá próxima sou eu que dou-le a corda e ponho-la ao pescoço com um nó bem forte. E desta bez num bai falhar. Ai dou-le, dou-le. 'Tou-te a dizer. Oh despois quero ber se ele é mesmo coitadinho.