Ingrid Ulmer, "Bolero"O poema é carnal,
Visceral, atinge o âmago,
Cinde o tempo no fulgor
As nebulosas adensam-se
Nos pomares dos teus cabelos
Recordo-te onde te deixei:
À beira-mar, sereia monumental
Cuja beleza alimentava a espuma das ondas
E o mar sussurrava-me que só tu me levarias
Numa viagem ao fim da noite
Lembro-me do deleite interior
Nos momentos em que sorrias
Ante a vibração das minhas palavras
A concatenação dos olhares,
Os silêncios cumulados
Nos interstícios da ternura
De melífluos sentidos, arrebatadores,
Nos momentos em que
A explosão do beijo
Equivalia a todos os vulcões em erupção
(O perfume do teu cabelo desperta vulcões, simbioses e magmas)
Recordo-me como te sussurrei
As epopeias de um mundo glorificado
Apenas pela fusão do teu rosto no meu peito
Apenas pela contemplação da melancolia nos teus lábios
Com sabor a páginas de livros rasgadas
Velas de uma nau desfraldadas
Na marítima serenidade dos teus dedos
Acariciando a brisa que nos acometia de languidez
Foram tantos os boleros que nunca dançámos
Os verões sucederam-se num rumorejar de estações
Alcandoras pelo chilrear de uma ave migratória
Enquanto uma balada nos embalava
Na eternidade momentânea de algo inominável
Nos instantes muitos em que ansiei
Que o sol transformasse numa maré de guitarras profundas
O sal derramado pelas lágrimas do teu olhar
(Foram tantos os instantes em que queria ser alquimista e transformar as tuas lágrimas em pirilampos resplandecentes de luz)
As pérolas perdidas não voltam
Os equinócios são os guardiões das estrelas cadentes
Quantas batalhas não foram ganhas nas lendas egípcias de outrora?
Quantos Partenons não foram sonhados, ocultados dos olhos dos comuns mortais
Por excesso de beleza, porque ficariam sempre aquém da beleza
Que a mortalidade dos artífices poderia oferecer
Sim, porque seriam uma réplica imperfeita de algo que se oculta em ti
Sim, porque seriam simulacros inacabados das explosões afectivas
Que na noite do teu dia nunca traduziram fielmente
O êxtase de sois poentes
Que não seriam apenas sóis se a musicalidade da tua voz
Transcendesse o Outono grave das montanhas
Poderá ser misticismo desvelado
Esse desejo caótico de sentir reverberar na escuridão
As curvas quentes do teu corpo alvo
Poderá ser insaciável sede de utopias
A extrema lucidez com que o calor das tuas mãos
Conspirava num acto de redenção pelas auroras
(De auroras feitas de música e champanhe, de inenarráveis fragmentos suspirados ao teu ouvido, ateados pelo odor do teu ser mulher)
As palmeiras adensam-se nas avenidas
Os rostos mantêm a sua perplexa inexpressividade
A complacência dos sorrisos
O fumo do cigarro que se apagou
As baladas tristes nas bocas de alguns
Só renasceram como MÚSICA
Porque estavas lá, porque a tua imagem
Mística de sereia acalentou as incidências
Desbravou as recusas
Estrangulou os desprezos
Libertou inconscientes envergonhados da sua loucura criativa,
Imprimindo-lhes a temperança e a sabedoria
Os boleros consomem-se em furtivas e noctívagas expectativas
De sucumbirem ante teus pés de deusa de astarte
No asfalto os quilómetros percorridos
Traçam essa linha de que a poesia é uma espingarda disparando rosas
Para coroarem o teu cabelo
Desalinhado pela voracidade de mãos que te rendem tributos de carinho
(Ah se residisse nas mãos o poder de conceber estrelas do nada incriado, o teu cabelo seria uma constelação contemplada pelos solitários que demandam no céu a busca de graals)
O poema é carnal,
Nocturno, extenso como cascatas de água
Refrescando o teu corpo no espaço tórrido de um soneto,
O teu nome é mais do que essa junção de palavras,
Mais do que o fruto efervescente, do que a metáfora e o suspiro,
Metonímia incompleta em redor de uma sã loucura:
Galáxias dançam boleros em madrigais de paixão
Ateando nos teus lábios a candura de uma elipse…

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