Sábado, Maio 28, 2011

Fotografando a Impossibilidade do Sonho


Foto de Sebastião Salgado

Fomos flâmulas numa nau de epopeias, ali
onde as romãs se alimentam de violinos e de luas.
Os mitos originários inculcando nos rios atravessados
a Promessa e a Ave,
o fascínio do sabor da Ideia.

Fomos crianças palmilhando o infinito,
como se fosse sempre infinito
tudo o que estava fora das mãos, enlaçadas.
No assombro das sibilâncias do teu corpo, no tecto
enquanto as guitarras clareavam os espelhos despidos,
no pudor velado das oferendas da Noite.

No sussurro dos quadrantes da voz, a Promessa
foi essa sublime ideia que inventámos, a sós
só para nós.
Essa paixão liquida evaporando-se,
nos anéis de escadas que galgávamos até ao esplendor.
Reflectido na violência fremente das searas,
no orfeão que víamos pela janela,
iluminado pelas sombras.

Fomos futuro latente de acontecer,
no lamento da planície navegada pela Ideia.
Fecundámos o leito do delírio,
solidão cantada a quatro mãos nos sete ventos
movendo moinhos, devastando entardeceres inteiros,
inertes no silêncio dos rochedos.
Em que recitávamos poemas aos lírios e salgueiros.

Fugindo da chuva
à velocidade de um sentimento molhado,
minguado no calor dos lábios.
O beijo acendia-se e os braços
sem ponto de fuga ancoravam-se,
desmesuradamente
na Ideia a que,
por loucura (apenas por loucura),
denominámos Promessa.
Como se fossemos crianças.
Fotografando a Impossibilidade
da distância tangível do Sonho.

0 Suspiros inspirados pelo Ritmo das Palavras: