Quarta-feira, Maio 04, 2011

Jet Lag Café

Por vezes, as transformações encontram-nos, de súbito, no virar de uma esquina qualquer . Os ponteiros do relógio urgem, temos um avião para apanhar e alguém nos lembra que não o temos no pulso. Jet lag temporal. Ou que nos esquecemos de um pensamento em cima de uma mesa de café. Há muitos ecos atrás.

É um cliché esculpirmos o sangue derramado pelos nossos desejos na vertigem das tempestades. Findos os relâmpagos, a paz é uma elegia de marfim e o silêncio o único ponto de intersecção entre a temperança e a turbulência emocional do mundo. A nossa turbulência é o reflexo de que o universo se expande todos os dias.

De sermos incapazes de transcender todas as montanhas flutuando. Dos rostos que passam por nós e que não vemos por pura distracção. Das mãos que se estendem até à nossa e nas quais não reparamos porque as balas se cravaram na penumbra dos dedos. E arrepiamos caminho até a um porto de abrigo imaginário.

Os incêndios que nos consomem são ateados com metáforas. De caravelas que naufragam nos hipnóticos sonhos de especiarias lendárias.

Permanecerá algo na ebulição dos segundos? Talvez um rio que nunca esgota as suas correntes, talvez as margens fundeadas, talvez as intempéries de madrugadas quase insones. O olhar tem a cor inexpressiva do tamborilar dos aguaceiros na janela. A voz ladeada por um eco ao redor de uma fogueira dilacerou-se porque ficou cativa de um cardume de notas que se perderam da partitura.

A ditadura dos horários, os olhares vendados pelos hortos, que nos tornam cegos à essência das coisas. O esplendor na relva no piquenique das identidades.

A esquina vai-se circunscrevendo com a urgência cardial de um suspiro, com a sensação profunda e imanente de que o impossível se torna possível, demovendo todos os eclipses e lutando contra todas as encruzilhadas.

Voltamos ao café e agarramos aquele pensamento que ficou esquecido em cima da mesa. E prosseguimos acariciando a espuma dos dias e as tempestades que nos electrizam de forma absolutamente contundente.

0 Suspiros inspirados pelo Ritmo das Palavras: