Segunda-feira, Maio 30, 2011

Os Meus Olhos Contemplam-te Através de Íris de Fogo

Salvador Dali, "Galatea de las Esferas"

O revolver do imaginário,
na pressa calada dos braços,
murmúrios em desordem,
de janelas abertas para um caos.
Aviltando o tempo de benção do fruto,
nas estiagens
passadas ao largo de lençóis desgrenhados,
pelas batalhas travadas em flor de lótus.

Lábios predadores fundindo-se em relâmpagos,
no âmago da chuva matinal
que amanhece límpida,
e destrói
os vestígios das elegias,
das praias invadidas
pelas ondas propulsoras de límpidos oásis.

Jaz a tua imagem em leito de rosas e simulacros,
na solidão que te prende, cativa
de um semi-deus qualquer,
em que que sou anátema
de um desejo conspurcado
à tez vivída de crisântemos
e poemas brotando em tuas ancas.
Invejo a muralha que nos distancia pelo teu sono,
numa fúria atroz
de ser embalado pela audácia triste das horas,
que te afastam do meu trono
feito de veludo e bagos de mel.

A minha mão contorce a pena num trémulo trejeito,
desenhando-te a alma sumptuosa
através dos nós corredios de sensualidade
que lastram nos teus jeitos,
imperfeitos de orquídea mulher,
atando o teu corpo à raiz
do querer-te
qual pássaro doando liberdades de astros,
às púpilas de astarte virgens de esperança
desses meninos-luz,
que sonham brinquedos inventados
à inocência da escassez
em ter não mais do que sorrisos
que lhes aconcheguem a penumbra dos dias.

A doçura do acto inacabado
e a fé reencontrada envolvem-te
os cabelos morenos soltos,
pendendo sobre os ombros abandonados ao frio
resguardados pelo calor da minha presença,
que te enreda
em desordenados afluentes
de uma loucura que não se detém
na inquietação das árvores.

Sinto-te ofegante,
qual raíz do meu respirar
ao inscreveres as sementes das nossas lágrimas
naqueles silêncios das idades sepulcrais da Terra,
e pulsas
como uma constelação atónita em minha órbita,
eu que sou apenas demasiado humano
para te absorver
até ao mais infímo dos detalhes
que compoêm a quintessência
de teu voo de ave num passo furtivo
quando me dás a mão.

Dir-me-ás que não.
Que no pudor agnóstico a que me reservo.
Mulher
és a minha secreta e velada religião
Dir-me-ás que não faz sentido
A inquietude no momento da oração,
Que a poesia é um lastro de olvido,
filha bastarda do desvario e da desrazão
Dir-me-ás que não faz sentido
O facho de mel que pulula nos leitos cálidos,
as veias e ungentos brandos do coração
Por ti dimensionado. A ti convertido.

0 Suspiros inspirados pelo Ritmo das Palavras: